segunda-feira, 31 de março de 2014

Mundo Lusófono

Crioulos europeus famosos 



“Aos negros ... é permitido casar não apenas entre eles, mas também com gente de outra cor. Esses cruzamentos tornaram o país repleto dos mais diferentes exemplares de mostrengos humanos. Um branco e um negro geram um mulato. O mulato une-se então a um negro ou a um branco, e com isso formam mais duas variantes chamadas mestiços. Esses mestiços de branco então unem-se a mestiços de negros ou brancos, ou mulatos; e assim, são tantos os ramos em que se desdobram com tais cruzamentos, que se torna difícil distingui-los com designações exactas, embora sejam facilmente identificáveis no geral pelos seus tons de pele.”
A descrição não corresponde a nenhuma ilha de Cabo Verde ou outro território crioulo colonizado no pós-Descobrimentos, mas sim ao Portugal de setecentos e foi retirada da obra do Reverendo inglês Dr. John Trusler datada de 1747, onde ele condensou depoimentos de vários viajantes estrangeiros.
O autor continua: “a raça portuguesa de origem foi por tal forma degradada que ser um Blanco, isto é um branco de verdade, tornou-se título honorífico: e assim, quando um português diz que é Blanco, não quer dizer que a sua pele o seja, mas apenas que se trata de uma pessoa de família de certa importância”. Afinal de contas, a expressão cabo-verdiana djam brancu dja (já me tornei branco, porque já tenho posses) tem antepassados longínquos na ex-Metrópole!
Era assim em toda a Península Ibérica como descreve outro viajante inglês, Richard Twiss, que depois de passar por Lisboa em 1772/73, cidade onde segundo ele “um quinto dos seus habitantes era composta de pretos, mulatos e de várias nuances entre o branco e o preto”, copiou em Málaga, Espanha, dezasseis legendas de painés que mostravam diferentes tipos de mestiços: mulato, cruzamento de branco espanhol com negro; morisco, espanhol com mulata; alvino, morisco com espanhol; lobo, negro com índio; sambaigo, lobo com índio; cambujo, sambaigo com mulato; albarassado, cambujo com mulato; barzino, albarassado com mulato; negro de cabelo liso, barzino com mulato. Convenhamos que em termos de denominação das “novas” castas crioulas, os espanhóis conseguiram ser mais sofisticados que os portugueses...
Estas notas retiradas do livro “Os Negros em Portugal – uma presença silenciosa” do brasileiro José Ramos Tinhorão dão que pensar em relação à origem da conhecida expressão de que “a África começa nos Pirinéus”...muito utilizada por outros povos europeus para designar de forma depreciativa os povos ibéricos.
A criação do mulato e o poço dos negros
A criação do mulato pelos portugueses é um fetiche que o lado macho da sociedade lusitana gosta de entreter, numa exaltação fálica e masculina, esquecendo-se que muitos mulatos eram filhos de mulheres brancas e homens negros, situação normalmente não mencionada. A própria palavra mulato deriva do termo mula, ou seja um híbrido entre cavalo e jumenta ou égua e burro. Outras fontes acham que deriva da palavra árabe “mwallad” que significa a mistura de árabes com não-árabes, quaisquer das origens igualmente pejorativas.
O poço dos negros contruído em 1551 em Lisboa pelo Rei D. Manuel – era o buraco “o mais fundo que pudesse ser, no lugar que fosse mais convinhável e de menos imconvinyente, no qual sellãçassem os dito escrauos” e onde se devia jogar regularmente cal virgem, “pera se milhor se gastarem os corpos...”. As manchas negras da sociedade deveriam ser apagadas e escondidas da História com cal branca, nada mais simbólico!
Uma coisa é exaltar os mulatos feitos além-mar, outra coisa bem diferente é reconhecer essa mesma “mulatagem” dentro de portas.
Mestiços famosos: Padre António Vieira, Marquês de Pombal, Almada Negreiros e CR7
Padre António Vieira – homem de inteligência invulgar, politico e diplomata, considerado um sábio na corte portuguesa e famoso pelos seus sermões, era um mestiço de pele morena que nasceu em 1608 em Portugal, morou em Salvador da Bahia, Brasil a partir dos 6 anos, e escreveu o seu primeiro livro aos 16 anos. Foi considerado o mais importante escritor da Literatura Barroca portuguesa. Há referências de que a sua ascendência mestiça tem origem em Cabo Verde. Passou algumas vezes por Cabo Verde, pregou na Cidade Velha e terá recomendado ao Rei de Portugal que abrisse uma escola para os habitantes da colónia que mostravam uma inteligência fora do vulgar, que viria a ser a primeira escola missionária feita pelos portugueses em África. Tratava carinhosamente os caboverdeanos por “conterrâneos” e “povo gentil”, sendo famosa a sua citação de que na Cidade Velha encontrou clérigos e cónegos locais dotados de uma sabedoria que fariam inveja aos melhores do Reino. 
Marquês de Pombal -  famoso ministro que governou Portugal durante 27 anos, responsável pela reconstrução de Lisboa após o terramoto de 1755, pela extinção da Inquisição e pela lei de 19 de Setembro de 1761, que põe fim a trezentos e vinte anos de importação de mão-de-obra escrava para Portugal. Uma outra lei pombalina de 1773, conhecida como ”Lei do Ventre Livre”, estipulava “que aqueles cuja escravatura remonta à sua bisavó sejam libertos e emancipados, mesmo que as mães e avós tenham sido escravas”. Nessa altura a psicose com a mestiçagem é tão grande em Portugal, que são exigidos certificados de pureza genealógica a cada candidato à participação na gestão pública (Loude, Lisboa na Cidade Negra). Ironia do destino (ou não), Pombal tinha uma bisavó negra, escrava-amante do seu bisavô que era padre.
José Almada Negreiros - brilhante artista multidisciplinar, poeta e pintor futurista, nasceu em São Tomé e Príncipe em 1893, filho de uma abastada mestiça sãotomense e de um tenente de cavalaria português, administrador do Concelho de São Tomé. Um homem admirado pela sociedade portuguesa, cuja carapinha não escondia as suas origens.
Cristiano Ronaldo - nascido em 1985 na ilha da Madeira, actualmente o melhor jogador de futebol do mundo. O que CR7 veste, come, diz (ou não diz) é seguido e imitado por milhões. As suas putativas costelas cabo-verdianas têm gerado muita polémica. Segundo várias fontes, incluindo a irmã mais velha, a bisavó materna de CR7 é uma cabo-verdiana que terá ido trabalhar para a Madeira e por lá ficou, casou e deixou descendência à semelhança de outros milhares ou milhões de africanos. So what?! Para a ilha da Madeira foram levados escravos para as plantações de cana de açúcar, desde guanches das ilhas Canárias, até mouros e negros africanos. Por essa via, existe uma grande probabilidade de CR7 ter outras costelas africanas mais remotas, à semelhança de qualquer madeirense, açoriano, algarvio, etc. E convenhamos que não poderemos censurar quem afirme que a potência atlética, velocidade, altura e compleição física de CR7 são muito pouco lusitanas e muito mais típicas de atletas africanos. Certamente não poderemos também censurar quem afirme que Eusébio foi o que foi por ser um mulato filho de pai branco e mãe negra! Há também quem sustente que a mistura apura, correndo o risco da teoria ser também apelidada de racista.... CR7 será apenas mais um entre a mais que provável esmagadora maioria dos portugueses, que para além de terem ascendência de godos, visigodos, celtas, lusitanos, também possuem sangue de mouros azenegues e negros das mais diversas etnias
Porquê mouros e não negros?
É comum em Portugal chamar “mouros” aos habitantes do sul do país, recordando a ocupação moura do país entre os anos de 711 e 1492.  Sabe-se que houve uma grande miscegenação nessa altura entre os habitantes da península ibérica e os mouros invasores, que por vez já eram resultado de misturas raciais entre povos berberes, árabes e negros subsarianos.
E a intensa miscigenação entre portugueses (já com sangue mouro) e os negros que foram trazidos aos milhares entre os séculos XV e XIX? Porque razão não se fala disso? Porque razão esta história mais recente foi abafada e se prefira falar na outra mais antiga em que os povos ibéricos foram subjugados e humilhados pelos invasores mouros durante quase 800 anos?!
As mesmas perguntas poderiam ser colocadas em relação a Espanha. Ou em relação a mais países europeus. Quantos europeus sabem que a esposa de Napoleão era uma crioula branca vinda da Martinique (ilha dos Kassav)? Ou que o grande escritor francês Alexandre Dumas, autor de “Os Três Mosqueteiros”, entre outras obras, era neto de um marquês e de uma escrava negra vinda do Haiti?
Alexander Pushkin, um russo mestiço com ascendência africana é reconhecido como o pai da moderna literatura russa e o maior poeta russo, e foi considerado o homem mais inteligente da Rússia pelo Czar Nicolau. Pushkin tem descendentes vivos na aristocracia inglesa.
Somos todos africanos (The Empire strikes back!)
Meu caro irmão lusitano, não te apoquentes com a tua mais que provável origem africana recente, seja ela moura ou negra. Os marinheiros são assim, aventureiros, e as aventuras têm consequências, deixam rastos. E os ingleses têm razão, “the Empire strikes back”!
Ao que parece somos irmãos ou primos (como preferires) duas vezes. Somos ambos descendentes do senhor e dos seus escravos. Mas não deixes que isso te tire o sono, porque no final, e espero que isto te alivie, todos viemos de África, mais cedo ou mais tarde. Afinal não foi da Mãe África que veio a espécie humana? É uma questão de relativização temporal. O planeta Terra tem 4,5 biliões de anos. Segundo os cientistas, o homo sapiens emigrou da África para a Europa e Ásia há 60.000 anos, apesar de alguns hominídeos terem saído do continente africano há cerca de 200-400 mil anos.
Perante desta grandeza de números, o que significam cerca de 400 anos de convivência recente? E essa história das raças? Mesmo o mais lourinho dos suecos veio de África. Só existe uma raça, a humana. E no final, o que foram os Descobrimentos a não ser um regresso recente à Mãe África?!
Crioulos europeus menos famosos
Curvo-me perante a memória (injustamente esquecida) dos milhões de escravos anónimos e seus descendentes que ajudaram a construir o mundo lusófono em que hoje vivemos. Dos negros das touradas que desafiavam os touros a pé, da corajosa Preta da Cartuxa e da preta Fernanda que toureava a cavalo em Algés, dos trabalhadores anónimos nos campos do Alentejo, Algarve e Andaluzia, aos das docas de Lisboa, Porto, Sevilha e Málaga, dos músicos que acompanhavam as procissões religiosas, dos negros e seus descendentes que integravam e até fundaram e geriram algumas confrarias religiosas, dos guitarristas, poetas populares e cantores que fizeram o fado, enfim, dos milhares que entre os séculos XV e XIX trabalharam arduamente lado a lado com os restantes portugueses e espanhóis na construção do que são hoje essas duas nações europeias.
Com esta sequência de 5 crónicas dedicadas aos Crioulos Europeus, iniciamos uma viagem pelo complexo mundo da escravatura e dos povos crioulos daí resultantes, começando pela própria Península Ibérica. Tentamos igualmente demonstrar que todos os povos em alguma parte da sua história foram escravizados e escravizaram, que foram escravos e senhores e que por isso mesmo apontar o dedo a quem quer que seja não só não nos ajuda a construir um mundo melhor, como pode ainda ser um bomba *

Texto da autoria de José Almada Dias.