quarta-feira, 31 de agosto de 2016

O Lago do Muro

Enquanto o bravo javali...
"O som da buzina venatoria fere as montanhas, e echôa nas profundezas do valle. O real veado, surprehendido em seu leito de verdura, ergue-se d'um pulo ao fatal clangor estirando os membros ageis; e depois d'haver interrogado a impregnada aragem, e escutado com ouvido attento, busca refugio nos matos onde alteia sobrelevada a sua ramosa corõa; entretanto o bravo javali corre por entre as moitas intrincadas, e evita o perigo que se aproxima, fugindo por instincto ao ruido da montaria.

Sôa ao longe o latido dos sabujos, que em matilha farejam os passos da rez fugitiva: conjuntamente rebôa o galope de guerreiros ginetes e o clangor das buzinas de caça, tangidas com frequencia por fervidos caçadores.
Redobra mais e mais este ruido longinquo: os cães seguem açodados a pista da venção, e os briosos corceis, contidos por seus cavalleiros, brincam agora impacientes, porque os não deixam ultrapassar as recovas dos alões.
Progride a montaria, e o arruido é cada vez maior. Olfactando a caça, os sabujos embrenham-se nas selvas, e vam descobrir o real fugitivo, que colhido em asylo da charneca, de mau grado o deixa para correr diante dos mastins que inutilmente o perseguem."
(excerto do Cap. I, O Lago do Muro)