domingo, 19 de maio de 2019

Quem atira a primeira pedra?


Aqui vivemos, no país da atençãozinha. Atenção há pouca, atençõezinhas há muitas. Parece que hoje são indispensáveis para que se avance, para o progresso. Como podemos nós ir longe sem uma atençãozinha? Não vamos. Decência hoje envolve evitá-las? Já não sei bem. Mas somos especialistas na arte de fazer uma atençãozinha. Não é exclusiva deste nosso rectângulo virado para o mar, a atençãozinha. No entanto, somos exímios artistas na sua performance e execução. Não há ninguém melhor que o português para pedir alguma coisa tentando não dar nada em troca. ​A atençãozinha é transversal, percorre todo e qualquer sector. Vai do trabalho ao dia-a-dia. Estamos habituados a vê-la na política, com a atençãozinha do genro que é ministro ao secretário de Estado que acaba por ser cunhado da prima do tipo que ajudou na tesouraria de toda a campanha eleitoral. É o dia-a-dia. A atençãozinha chega a ser razoável ou apropriada se for utilizada numa dose ínfima e sem importância que não prejudique terceiros directa ou indirectamente. Mas nós portugueses somos lambões.
Imagine-se o caso do grande chefe versus o grande actor. Quem ganha no ringue da bazófia? Quem leva a melhor na grande batalha do peito cheio? Haverá apostas para o grande vencedor do Óscar de Maior Vaidade? Será uma disputa renhida. Isto porque de um lado temos o grande cozinheiro que sabe muito bem como estagiar lascas de anona em muco de lebre caçada ontem enquanto dá ordens para que se possa empratar como deve ser as uvas sem grainha com o inhame braseado; e do outro o afamado artista que sabe chorar sem que lhe peçam. Quem paga a conta? “Eu entrei em grandes filmes, esgotei bilheteiras, mereço uma atençãozinha.” Tudo bem, mas ainda anteontem o Obama jantou aqui e repetiu a sobremesa. Queres, vens, mas pagas. A atençãozinha envolve saber negociar muitas vezes. Ofereço-te a degustação e levas-me a Cannes. As atençõezinhas chegam a este nível de inutilidade.

Vejamos o que faz o guru dos hotéis na Península Ibérica para que o filho, o sobrinho mais velho, a afilhada e duas outras miúdas, que se juntaram porque trocaram roupa, para entrar na melhor discoteca daquela cidade. Um telefonema. “Olha, uma atençãozinha aí aos miúdos, Paulo se fazes o favor. São cinco”. Custa-me a querer que o Paulo durma de borla num cinco estrelas dias depois mas a atençãozinha às vezes pede apenas influência e não algo em troca. A linha é ténue para que a possamos distinguir das demais estratégias.
Quando a atençãozinha é usada para algo que não aquilo a que foi destinada não vale a ponta de um chavelho. Se é para usar correctamente, é à séria. ​São os bilhetes para os festivais, os melhores lugares no espectáculo, as multas e os excessos. São os restaurantes, a noite, os papéis assinados e a entrada, seja onde for. A discoteca, a universidade, o acesso ao crédito ou o escritório. Uma passagem à frente, um encontrão, o “fazer mais depressa e a menor preço”. A atençãozinha versus o esforço. A facilidade contra o trabalho. Tudo em prol do bolso? Não creio. Talvez em prol do asco e de uma vida repugnante. Vem daí, fazemos atençõezinhas... e excursões para visitar o Terreiro do Paço.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

O que é que estes energúmenos tem no lugar do coração ?

Três responsáveis por coutos de caça em Tutela e Cintruénigo, região de Navarra, conheceram agora a sentença do tribunal pelo caso mais grave de envenenamento conhecido até hoje em Espanha e mesmo na Europa. 

De acordo com o tribunal de Pamplona, os três arguidos foram considerados autores “criminalmente responsáveis de um delito relativo à protecção da fauna na modalidade de caça de espécies ameaçadas”, indica o jornal Noticias de Navarra.
Cada um foi condenado a dois anos e oito meses de prisão e ainda a cinco anos e quatro meses de inabilitação especial para a “gestão do aproveitamento cinegético de coutos de caça, para o ofício de guarda de caça e para o exercício do direito de caçar.” Vão ter de pagar também uma indemnização conjunta de 67.538,65 euros à Comunidade Foral de Navarra.
Em causa estão dois delitos relativos à protecção da fauna: caça de espécies ameaçadas e utilização de veneno para a caça.

Foi entre Abril e Setembro de 2012 que guardas florestais de Tutela, na região de Navarra, descobriram o envenenamento de 138 aves de espécies consideradas Vulneráveis ou Em Perigo, incluindo várias sob protecção especial. Segundo o jornal, os crimes aconteceram em três coutos de caça e vitimaram 129 milhafres-pretos, 4 milhafres-reais, 2 grifos, 1 abutre-do-Egipto, 1 tartaranhão-ruivo-dos-pauis e 1 águia-de-asa-redonda, entre outros. Muitas das aves foram encontradas em áreas protegidas, dentro dos limites de um dos coutos. Foram também encontrados mortos quatro cervos.
O tribunal considerou provado que a causa da morte de todas estas aves foi o uso de iscos envenenados com Fention e com Demeton S-motil, substâncias proibidas há vários anos no país. Esses venenos foram usados repetidamente, em especial num dormitório de milhafres situado dentro de um dos coutos de caça, “com o objectivo de eliminar predadores de espécies susceptíveis de caçar nos coutos, fundamentalmente a perdiz e a lebre.”
Este foi o maior caso de envenenamento de fauna selvagem conhecido em Espanha e mesmo na Europa desde que há registo destas situações, em 2004. Demorou quase sete anos a ser sentenciado, devido aos muitos recursos apresentados, e envolveu escutas telefónicas, uma das principais provas contra os acusados.
No processo, estiveram envolvidos tanto o Governo de Navarra como várias organizações ambientais, nomeadamente a Ecologistas en Acción, WWF Adena España e SEO Birdlife.
Em Portugal, onde o problema do envenenamento de fauna selvagem tem sido reconhecido pelas autoridades, não houve até hoje qualquer condenação por casos conhecidos. Em Abril passado, foi apresentado publicamente o novo Programa Antídoto, que revê os procedimentos a adoptar pelas autoridades nacionais quando há suspeitas.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Dr: Lima de Carvalho

Com profunda mágoa que soube da partida deste Homem Integro e Amigo.
Perda irreparável de um dos poucos Homens bons que conheci.
Os meus respeitos e sentidos pêsames.
Cascais ARTE
18 min
Hoje o Mundo das Artes fica mais pobre, mas o Céu ganha uma Estrela Maior. DEP 🙏🏼
Velório amanhã, às 19 horas, na Igreja de Caselas e funeral no sábado, 12,30, Missa de Corpo Presente seguindo para o Crematório de Cascais (Alcabideche), às 14,00 horas.
Nuno Lima de Carvalho, português, Vila Franca do Lima, Viana do Castelo, Portugal, 1932. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Salamanca e em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Secretario-Geral da Estoril-Sol de 1971 a 2002. Director da Galeria de Arte do Casino Estoril desde 1975. Títulos: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Comendador da Ordem de Mérito Vaz de Caminha, Brasil, Comendador da Ordem de Mérito Civil de Espanha, Cidadão Soteropolitano (Salvador da Bahia, Brasil).

Armas. Legislação de novo alterada.



Mais uma machadada no sector da Caça!... e mais uma vez pela Lei das Armas!
Imperou a demagogia e a fixação anti-armas que constava da proposta inicial do Governo, fortemente apoiada pelo BE.
Esperávamos mais dos Deputados em temas como a detenção de armas ao domicílio, aspeto crucial para a transmissão de armas entre gerações, para a salvaguarda do património das famílias e da propriedade privada, para a preservação da nossa cultura e para a cativação das novas gerações para a prática da caça e do tiro desportivo.
Somos ainda surpreendidos com a obrigatoriedade de todos os proprietários de armas possuírem cofres, independentemente do número de armas. Trata-se de um aspeto que certamente levará ao abandono da caça por muitos praticantes, em especial aqueles de menores posses, seguindo-se assim o rasto e o estrago feito pela Lei 5/2006.
As melhorias introduzidas nesta Lei das Armas, no seguimento das muitas propostas apresentadas pelas partes interessadas, acabam por ser fortemente ofuscadas pelas alterações negativas que foram introduzidas, apesar das vozes contra (organizações do sector da caça, do tiro desportivo, dos armeiros, dos colecionadores) e dos partidos que apresentaram propostas alternativas.
Os resultados estão à vista e, apesar da votação ponto a ponto, em Comissão Parlamentar, ter sido muito repartida, com a geringonça unida e a oposição pelo outro lado, desta comissão acabou por surtir um texto final que foi hoje aprovado na globalidade com votos a favor de todas as bancadas, com exceção do PAN, que se absteve. Curioso!
Começando pelos aspetos negativos, esta nova Lei estabelece:
• A obrigatoriedade de todos os proprietários de armas possuírem cofre para a guarda de armas, independentemente do número de armas detidas (antes apenas necessitava de possuir cofre quem detivesse mais do que 2 armas de cada classe);
• Que os proprietários de armas devem, no prazo de um ano após a entrada em vigor da nova Lei, comprovar possuírem cofre, mediante a submissão de comprovativos em plataforma eletrónica da PSP;
• Os cofres ou armários de segurança não portáteis devem possuir nível de segurança mínima de acordo com a norma europeia EN 14450 - S1. Acontece que segundo sabemos não abundam cofres com estas especificações no mercado nacional e, sobretudo, a larga maioria dos cofres que foram vendidos até à data presente, não tinham qualquer tipo de homologação, por também não ser exigida;
• O fim do regime de detenção de armas ao domicílio, fixando um prazo de 10 anos para os atuais detentores de armas ao domicílio se desfazerem das mesmas. As consequências para o mercado das armas serão colossais: os preços vão cair a pique e as armas ficarão sem qualquer valor comercial. Trata-se de uma verdadeira expropriação… difusa no tempo!;
• A proibição de possuir mais do que 25 armas das classes C e D, em separado ou em conjunto (antes não existia limite, apenas variando as condições de segurança para a sua guarda). São aparentemente salvaguardadas as situações existentes à data de entrada em vigor da nova lei (podendo ser mantidas mais do que 25 armas) embora o articulado aprovado seja contraditório ao estabelecer, por um lado que «O número limite de armas … não se aplica às detenções já constituídas à data da entrada em vigor da presente lei» e por outro existir disposição que estabelece que «Os titulares de licenças C e D que, à data da entrada em vigor da presente lei, sejam proprietários de armas dessas classes em número superior ao estabelecido …, dispõem de um prazo de cinco anos, após a entrada em vigor da presente lei, para as transferir, exportar, transmitir, desativar, entregar a favor do Estado ou, verificando-se os requisitos exigidos, habilitar-se com licença de colecionador». Enfim, algo estará errado. Esperamos que seja o prazo dos 5 anos?!;
Relativamente aos aspetos positivos, salientamos:
• A criação de um período de seis meses após a entrada em vigor da Lei para a entrega voluntária de armas e para a regularização de situações de infração, sem qualquer procedimento sancionatório;
• A possibilidade de utilização de moderadores de som com redução até 50dB, novidade que resulta de proposta da ANPC;
• A possibilidade de classificar armas de fogo anelar (caso das carabinas calibre .22) como armas da classe C;
• A possibilidade de cedência a título de empréstimo ou confiança, bem como a cedência momentânea (caso uma arma se avarie) de armas das classes C e D, quer a cidadãos nacionais, quer estrangeiros, para efeitos de prática venatória ou tiro desportivo, novidade que resulta de proposta da ANPC;
• A possibilidade de cedência de armas a caçadores nacionais ou estrangeiros para a prática venatória, por parte das entidades concessionárias de zonas de caça turística, novidade que resulta de proposta da ANPC;
Esta lei hoje aprovada na Assembleia da República deixa-nos com um sentimento ambivalente, com a sensação de que imperou a demagogia à razão.
Se é verdade que várias das nossas propostas foram aceites e incorporadas, é também verdade que se legislou sem acautelar os impactos graves que algumas das novas normas aprovadas irão ter para sectores como a caça, bem como para todos aqueles que detêm, utilizam e comercializam armas legais, de forma legal.
Relativamente ao uso e comércio ilegal de armas, aquilo que deveria ser verdadeiramente reprimido e perseguido, esta lei não traz nada de novo.
#SomosANPC
#ANPCnotícias
O documento de substituição que foi submetido a votação em plenário, incluindo a sua votação ponto a ponto em sede de comissão parlamentar, poderá ser consultado em:
http://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf…


Homologação de cofres para guarda de armas | alteração da lei das armas
Relativamente aos cofres, a ANPC obteve já esclarecimento de que aqueles que foram comprados antes da entrada em vigor desta lei, desde que constem já do processo de obtenção ou renovação de LUPA, ou de processo de mudança de residência, serão considerados como estando conformes relativamente à nova lei.
 É igualmente clarificada a incongruência relativamente às licenças de detenção ao domicílio, que são efetivamente todas renovadas por um período de 10 anos, de forma automática, pela entrada em vigor desta lei

terça-feira, 14 de maio de 2019

Alforrecas

Caravela-Portuguesa: Bloom a nível nacional
teste2019-05-14 (IPMA)


A espécie Physalia physalis (Caravela-Portuguesa) está, de momento, a ocorrer em toda a costa Portuguesa, incluindo nos Açores e Madeira.

Entre as espécies que ocorrem em Portugal, a Caravela Portuguesa é a que exige mais cautela. Influenciada por ventos e correntes de superfície, é frequentemente avistada na nossa costa. Apresenta um flutuador em forma de “balão" de cor azul e, por vezes, tons lilás e rosa; os seus tentáculos podem chegar aos 30m de comprimento e são muito urticantes, capazes de provocar graves queimaduras. Por isso, é importante relembrar que não se deve tocar nos tentáculos, mesmo quando a Caravela portuguesa aparenta estar morta na praia.

O GelAvista, relembra os cuidados a ter em caso de contacto com os tentáculos de uma caravela: deve limpar bem a zona afetada com água do mar e retirar quaisquer pedaços de tentáculos que possam ter ficado presos na pele. Poderá aplicar vinagre e bandas quentes e deverá procurar assistência médica.

A desenvolver a sua atividade desde 2016, o programa GelAvista tem vindo a envolver os cidadãos na ciência para a necessária recolha de informação sobre a ocorrência ou inexistência de organismos de aspeto gelatinoso na costa Portuguesa. Recebe informação sobre a presença de organismos gelatinosos, alertando a população, e transmite informação científica sobre as espécies, bem como os cuidados a ter em caso de contacto direto com a pele.

Qualquer ocorrência desta ou de outras espécies de organismos gelatinosos poderá ser comunicada ao programa GelAvista. A informação de cada avistamento (data, local, número de organismos e fotografia com objeto a servir de escala) deverá ser enviada para o email plancton@ipma.pt, ou através da aplicação GelAvista disponível na Play Store para sistemas Android.

Na página de facebook do GelAvista são frequentemente partilhadas as mais recentes ocorrências de organismos gelatinosos em Portugal, e no sítio gelavista.ipma.pt está também disponível informação sobre as espécies.

O Gelavista pretende continuar a contar com a colaboração da população para estudar e compreender a dinâmica dos organismos gelatinosos a larga escala em território nacional para que, no futuro, seja possível a previsão destas ocorrências.

domingo, 12 de maio de 2019

Os livros e a censura em Portugal.




OS LIVROS E A CENSURA EM PORTUGAL

Publicado por Paulo Ferreira em

OS LIVROS E A CENSURA EM PORTUGAL
José Brandão

Não se sabe bem ao certo quanto tempo a cultura portuguesa pôde viver livre da implacável repressão dos censores e seus mandantes.

Pelo menos desde que D. João III, no ano de 1539, se lembrou de “empossar” um seu irmão mais novo, o cardeal D. Henrique, nas funções de inquisidor-geral do Tribunal do Santo Ofício, os livros, os autores, os editores e tudo o que não entrava nas boas graças da Santíssima Inquisição, jamais tiveram grande descanso e conseguiram dar asas ao seu espírito criador.

Uma das primeiras ordens do cardeal inquisidor foi pôr o prior de São Domingos e os frades da confraria a proceder a um varejo nas livrarias públicas e particulares à procura de livros proibidos ou considerados nefastos. Obras de Damião de Góis, autos de Gil Vicente, a 2ª edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, O Diálogo do Soldado Prático, de Diogo do Couto e O Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira, estão entre as muitas que conheceram a beatitude dos índices expurgatórios.

Um texto de José Amaro Dionísio, Escritores na Prisão, publicado na revista «Grande Reportagem», de Julho de 1993, conta que de Camões a Camilo, do padre António Vieira a António José da Silva, de Francisco Manuel de Melo ou a marquesa de Alorna a Gomes Leal, de Bocage a Cesariny, é ininterrupto o rol dos poetas, novelistas ou ensaístas que pagaram a factura da sua diferença. Porque foi regra geral esse o crime: ter um rosto e voz próprios. Carrascos, sempre os mesmos: o poder e o dinheiro, a maioria e a manha.

Damião de Góis, cronista de reis e príncipes, esteve preso quatro anos. Quando já era septuagenário acabou por sair sob liberdade condicional para morrer nesse mesmo ano de 1574. Causa da prisão: ser autor da Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, publicada em quatro volumes, e na qual o monarca viu referências desfavoráveis à sua pessoa e à política do reino, nomeadamente a condenação da matança dos judeus. O primeiro volume foi apreendido e nele introduzido, à revelia do autor, elogios ao cardeal D. Henrique, inquisidor-mor, e à própria Inquisição.

Luís de Camões esteve preso duas ou três vezes, a primeira cerca de nove meses entre 16 de Junho de 1552 e 13 de Março de 1553, por causa de uma simples rixa no Rossio. Sobre Os Lusíadas, que salvara de um naufrágio na costa do Camboja, teve de submeter o texto aos censores do Santo Ofício, instalados no Mosteiro de S. Domingos, e discuti-lo verso a verso. Após a sua morte, ocorrida passado pouco tempo, sobre tudo o que escreveu, incluindo Os Lusíadas, caiu o silêncio da comunidade intelectual do seu tempo, ocupada a elogiar autores que hoje ninguém sabe quem são.

Francisco Manuel de Melo, poeta, dramaturgo, historiador, cronista militar, moralista, foi dos escritores portugueses que mais tempo passou na prisão – entre nove e onze anos, só de uma vez. Os motivos ainda hoje são obscuros.

Padre António Vieira, o profeta do Quinto Império também não escapou aos cárceres da Inquisição, nos quais foi metido em 1665 e 1667 por causa da publicação do livro Esperança de Portugal, Quinto Império do Mundo, Primeira e Segunda Vidas de El-Rei D. João IV, em que defendia os cristãos-novos e sibilava contra os dominicanos do Santo Ofício.

Francisco Xavier de Oliveira, Cavaleiro de Oliveira, o Santo Ofício condenou-o no dia 18 de Agosto de 1761 mas ele estava exilado na Holanda e safou-se. Apenas a sua efígie foi queimada, exactamente no último auto-de-fé que houve em Portugal, e os seus livros foram retirados do mercado.

António José da Silva, «O Judeu», dramaturgo, foi preso pela primeira vez em 1726, juntamente com a mãe. Torturado, liberto meses depois é novamente encarcerado em 1737, de novo com a mãe e agora também com a mulher e a filha. Dois anos mais tarde foi degolado e queimado num auto-de-fé no Terreiro do Trigo em Lisboa. A mulher e a mãe foram igualmente queimadas vivas.

Correia Garção, poeta e dramaturgo foi mandado prender no dia 9 de Abril de 1771 pelo marquês de Pombal. Metido no Limoeiro, aí ficou até 24 de Março de 1773. No dia em que a ordem de soltura chegou, morreu na enfermaria da cadeia.

Filinto Elísio, poeta, sacerdote, denunciado à Inquisição pela própria mãe, já depois da queda de Pombal.

E a lista apresentada no trabalho de José Amaro Dionísio na «Grande Reportagem» parece não ter fim:

José Anastácio da Cunha, preso e desterrado para Évora, já sob o reinado de D. Maria. Tomás António Gonzaga, preso e deportado para Moçambique. Marquesa de Alorna, obrigada a reclusão monástica juntamente com a mãe, viveu nas celas do Convento de S. Domingos de Benfica desde os 7 aos 27 anos de idade, entre 1758 e 1777. Bocage, várias vezes preso, condenado pela Inquisição a ouvir os sermões dos oratorianos no hospício-prisão das Necessidades. Almeida Garrett, preso, várias vezes exilado e demitido dos seus empregos, ora soldado ora ministro, correspondente comercial ou foragido, rico e pobre, é o exemplo de escritor às voltas com a vida. Almeida Garrett chega a vender parte da roupa para arranjar dinheiro, e a deixar a mulher e os filhos em casa de parentes por não ter com que os sustentar. Esteve encarcerado no Limoeiro, nos últimos três meses de 1827, acusado de incitar com os seus escritos o movimento liberal. Camilo Castelo Branco, preso na cadeia da Relação do Porto. Data: 1860-1861. Acusação: adultério. Gomes Leal, preso em 1881 acusado de injúrias ao rei D. Luís no panfleto A Traição e o Regenerado.

Com autos-de-fé, ou sem autos-de-fé, a vida cultural portuguesa raramente deixou de permanecer controlada e bloqueada pelo zelo das censuras e outros afrontamentos à liberdade de expressão e de pensamento.

Já no seu tempo, Alexandre Herculano haveria de escrever:

Onde quer que apareça a censura, onde quer que se aninhe esta irmã gémea da Inquisição, há uma quebra nos foros da independência do homem, há uma insolência do passado contra a dignidade social da geração presente. Seja para o que for, a censura é um impossível político.

Mais nos nossos dias, Anele Reis, autora de um apontamento sobre a censura, publicado no mensário «Portugal Socialista», de Janeiro de 1983, dirá o seguinte:

A censura, numa prática constante e presente através da cultura portuguesa, como dado negativo que é, contribuiu para forjar nossa maneira de ser e de estar no mundo, modelou comportamentos, estabeleceu preconceitos que vêm preocupando historiadores da cultura...


A poucos meses do 25 de Abril de 1974, o então ministro do Interior, Gonçalves Rapazote, ordenava à polícia política para “dedicar um cuidado particular ao imediato cumprimento das seguintes instruções:”

1 - Relacionar as tipografias que se dedicam à impressão de livros suspeitos – pornográficos ou subversivos;

2 - Organizar um plano de visitas regulares a essas tipografias para impedir, efectivamente, a impressão de textos susceptíveis de proibição;

(...)

5 - Organizar a visita regular às livrarias de todo o País para sequestro de livros; revistas e cartazes suspeitos e para apreensão dos que já estão proibidos pela Direcção dos Serviços de Censura;

E como se a censura não fosse suficiente, muitas vezes a Polícia assaltava as casas dos escritores, as gráficas ou os editores levando tudo o que vinha a jeito.

De uma só vez, a editora Europa-América teve 73 mil livros apreendidos e 23 títulos proibidos. A “caça” começou no dia 14 de Junho de 1965. Durante quatro dias deram volta a tudo. Regressaram no dia 23. Agora com carros que cercaram todo o edifício de Mem Martins e levaram toda aquela quantidade de livros. Em dinheiro da altura, o prejuízo andou pelo menos na ordem dos 700 contos. Para a grande maioria dos editores portugueses, nesse tempo, tal situação era a ruína completa.

Nesse mesmo ano, e na sequência da atribuição do «Prémio Camilo Castelo Branco» ao escritor angolano Luandino Vieira, a cumprir uma pena de 14 anos de prisão sob a acusação de terrorismo, a Sociedade Portuguesa de Escritores vê a sua sede, em Lisboa, feita em fanicos por obra de um bando de legionários e agentes da polícia política, acabando por vir a ser extinta por despacho do ministro da Educação Nacional.

Nos dois anos que antecedem ao 25 de Abril de 1974, as prateleiras da editora Seara Nova ficaram com menos 1500 contos de livros que a PIDE/DGS se encarregou de levar para os armazéns da Rua António Maria Cardoso. Além de ter alguns dirigentes e colaboradores detidos na prisão de Caxias (situação que era já quase normal), a Seara Nova podia contar, nessa altura, com pelo menos cinco processos por edições de livros considerados subversivos e que a DGS tinha já enviado para o Tribunal Plenário.

Vários editores viram as suas instalações destruídas e encerradas violentamente pela Polícia, como sucedeu, entre outros, com a Editorial Minotauro. Alguns tinham quase todas as suas edições proibidas de circular no mercado. Na lista que se apresenta no final deste texto, é bem visível um lote de editoras que aguçavam, com especial sabor, os apetites saqueadores da polícia política encarregue das apreensões.

Um dos últimos relatórios da actividade da Comissão de Censura, referente a Janeiro de 1974, indica quase centena e meia de títulos retirados do mercado em apenas um mês.

Segundo afirmou, em 1984, a Comissão do Livro Negro do Fascismo, foram proibidas durante o regime Salazar/Caetano cerca de 3300 obras.

Poucos foram os grandes nomes da cultura portuguesa que escaparam ao crivo da censura repressiva. Uma lista enorme de autores, onde constam alguns dos maiores vultos de sempre da nossa cultura, foi divulgada logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 pela Comissão Directiva da Associação dos Editores e Livreiros Portugueses.

Apesar da censura não se aplicar directamente aos livros, estes eram com facilidade retirados do mercado e os seus autores ou editores sujeitos a castigo. Foi o que aconteceu ao grande escritor Aquilino Ribeiro. Em 1959, com 74 anos de idade, o maior romancista português do seu tempo vê-se perante a barra do Tribunal, indiciado num processo por delito de opinião, em que a pena de prisão poderia ir até oito anos. Isto por ter publicado o romance Quando os Lobos Uivam, onde retratava uma realidade da vida camponesa, na Serra da Estrela, que desagradou ao regime de Salazar.

Para Heliodoro Caldeira, advogado de Aquilino Ribeiro nesse famoso processo e, também ele, um homem habituado nas lides do combate contra a ditadura, o caso explicava-se em meia dúzia de palavras, conforme teve oportunidade de expor aos autos de defesa do seu constituinte, onde, a dado passo, afirma o seguinte:

Através do presente processo, mais do que provar umas pretensas ofensas a tais e tais pessoas ou denunciar um ataque a certa estrutura política, o que parece procurar-se é coarctar o direito de um escritor fazer qualquer obra de ficção em que por transposição imaginativa tome posição acerca dos problemas que respeitem ao meio em que está integrado. Quer dizer, pretende-se relegar o artista à situação de simples escrevinhador de histórias, que não têm outra função senão a de divertir o bom burguês satisfeito com a vida e com o mundo. Acabar-se-á de uma vez para sempre com a liberdade de pensar, e ninguém pense mais em emitir juízos quanto à sociedade em que vive, passando todas as estruturas a ser inatacavelmente perfeitas, e nelas tudo correndo panglóssicamente pelo melhor. Seria o último estádio de um lento processo com fim de esmagar toda e qualquer manifestação de inteligência, de aniquilar o indivíduo como ser pensante e de o acorrentar bovino e passivo ao arado de que o Poder segura a rabiça.

A obra literária, tornada meio de embrutecimento e de nirvanação, iria caindo aos poucos num formalismo académico, num anedotário para bacocos, todas as formas destituídas, a preceito, de conteúdo. E adeus literatura, adeus cultura, adeus personalidade nacional!

Episódios como este, passado com Aquilino Ribeiro, davam para encher páginas e páginas contando situações vividas por outros nomes da craveira intelectual do grande mestre do romance Quando os Lobos Uivam. Alguns estão ainda vivos. E muitos são aqueles que, com maior ou menor impacto, conheceram a violência da censura no seu pensamento escrito, quando, não mesmo, a violência da brutalidade física na sua carne e na sua dignidade.

Por uma razão ou outra e por mais ou menos tempo, muitos escritores foram detidos sob a acusação de delitos políticos ou de atentado aos costumes. José Amaro Dionísio aponta algumas dessas situações:

No primeiro caso a lista vai de Maria Lamas e Rodrigues Lapa a Urbano Tavares Rodrigues – preso três vezes –, de Alves Redol, Alexandre Cabral, Orlando da Costa, Alexandre O´Neil, Alberto Ferreira e António Borges Coelho a Virgílio Martinho, António José Forte e Alfredo Margarido ou os mais novos Carlos Coutinho, Carlos Loures, Amadeu Lopes Sabino, Fátima Maldonado, Hélia Correia e Raul Malaquias Marques. Augusto Abelaira, Manuel da Fonseca e Alexandre Pinheiro Torres estiveram igualmente detidos às ordens da PIDE em 1965, na sequência da atribuição do prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores ao romance Luuanda, do angolano Luandino Vieira. Abelaira, Fonseca e Torres integravam o júri que decidiu o prémio a Luandino, preso no Tarrafal, e a SPE foi assaltada e extinta. Julgados em plenário foram ainda, por causa do livro Poesia Erótica e Satírica, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny, Ernesto Melo e Castro, Luiz Pacheco e o editor Fernando Ribeiro de Melo. Condenados com multas e prisão remível. Os dois últimos voltaram ao plenário para outro julgamento, o da tradução e publicação da Filosofia na Alcova, de Sade, que juntou no mesmo processo Herberto Helder e o pintor João Rodrigues. Condenados também com multas e prisão remível. Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa desceram por sua vez à barra do tribunal por causa das Novas Cartas Portuguesas. Absolvidas, já depois do 25 de Abril, embora o julgamento, evidentemente, tivesse começado antes. Nesta mistura de política e atropelos vários, Luiz Pacheco e Mário Cesariny são dois casos em destaque. Pacheco, como ele próprio recorda, esteve pela primeira vez preso em 1947 no Limoeiro, acusado de estupro. Foi condenado na Boa-Hora a pena suspensa. Voltou ao Limoeiro em 59, desta vez sob acusação de atentado ao pudor. Foi absolvido. De novo na cadeia em 68, por rapto e estupro. Desta vez foi condenado a meses de prisão efectiva, que cumpriu nas Caldas na Rainha e no Limoeiro.

Cesariny envolveu-se em 1960 em “actos imorais”. Obrigado a residência fixa, tinha de se apresentar todos os meses na Polícia Judiciária. (...) Esteve preso por menos uma outra vez, em Paris, em 1964, acusado de “ultraje público ao pudor”.

Tudo era assim neste país conforme nos conta o autor do artigo Escritores na Prisão: - a maldição que os une é a mesma: um país que em cada época e de geração em geração encomenda os seus escritores à miséria ou para o exílio, ao suicídio ou para a prisão. Para a prisão, juntamente: dos cronistas de 1500 aos autores contemporâneos sucedem-se os intelectuais que por razoes políticas, rivalidades pessoais ou inconformismo de costumes sofreram maior ou menor parte das suas vidas atrás de grades.

Tudo era assim e continuava a ser. De pouco serviam as intervenções parlamentares de deputados liberais, como Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Miller Guerra e de mais dois ou três que não poupavam o Regime, reclamando corajosamente pelos direitos e liberdades negados aos cidadãos do seu País.

O Governo era mais sensível aos editorialistas de jornais como a Erro! Não é possível abrir a origem de dados.«Época» que, em 1973, escreviam neste tom:

«Abriu há pouco a Feira do Livro de Lisboa. Entre as oitenta e tantas barracas de livreiros, quantas se destinam à propagação de livros apontados à subversão social?»

«Há forças ocultas a manobrar nos planos da inteligência desde as tribunas de crítica (que foram as primeiras posições conquistadas), até aos sectores da publicidade, que permitem comandos espantosos.»

Clara Barata e Luís Miguel Queirós são autores de um trabalho apresentado no suplemento Leituras do jornal «Público» de 11 de Junho de 1994. Chama-se Livrarias no Regime Fascista e nele alguns intervenientes recordam as suas experiências desse tempo: Reunia-se aqui muita gente contada com a oposição à ditadura – explica Fernando Fernandes, que acompanhou todo o percurso da Livraria Divulgação e passou a sócio-gerente da Livraria Leitura. Antepassada da actual Leitura, a Divulgação foi, no Porto, ao longo da década de 60, a mais importante livraria da oposição.

Conforme palavras dos autores do texto do «Público»: à sorrelfa, arranjavam-se os livros dos quais o regime não queria que se ouvisse sequer falar. Escondiam-se em vãos de estantes, paredes falsas, ou até em baldes de tinta, e só se vendiam a clientes de confiança – “por debaixo do balcão”, embrulhados em papel pardo.

A norte do Porto, raras eram, também, as cidades que não possuíssem uma ou outra livraria conotada com a oposição ao regime. A do historiador Victor Sá, em Braga – a Livraria Victor, na Rua dos Capelistas, cuja antiga sede foi sacrificada a interesses imobiliários – terá sido, porventura, a que atingiu maior notoriedade.

As pessoas sabiam que ao importar, distribuir ou editar determinadas coisas, se sujeitavam às consequências, conta José Ribeiro, da livraria, editora e distribuidora Ulmeiro, na Avenida do Uruguai, em Lisboa.

Por vezes, levavam-me preso, para a António Maria Cardoso, para prestar declarações. Faziam interrogatórios de intimidação, acusavam-me de ser um comunista disfarçado de comerciante, recorda José Ribeiro. A única hipótese era fazer como Manuel Ferreira da Costa, da Livraria Sá da Costa, de Lisboa: Eles faziam perguntas parvas e a gente respondia parvamente.

Habituávamo-nos a trabalhar em dois níveis. Interiorizávamos os códigos de vivência impostos, sabíamos o que podíamos escrever, editar ou vender. Jogávamos um jogo, reflecte Alferes Gonçalves, da Livraria Finisterra, em Coimbra. Era uma espécie de jogo do polícia e ladrão, acrescenta José Ribeiro.

Os livros proibidos eram verdadeiros “best-sellers”, tanto pelo que eram, como por serem proibidos. Muitas vezes nem eram nada de especial. Mas a proibição aguçava o apetite, afirma José Reis, gerente da Livraria Portugal, na Rua do Carmo. Quem fez grande fama dos livros proibidos da Ulmeiro foi a PIDE, comenta José Ribeiro.

O leitor interessado sabia onde encontrar o livro proibido. Em Lisboa, nas livrarias do Centro do Livro Brasileiro ou da Europa-América, na Moraes, ou na Ulmeiro. Na velha Barata, com o malogrado António Barata, ou o Afonso que por lá continua. Na Boa Leitura, junto ao Areeiro, onde um dos irmãos Branco tinha sempre o que era preciso. Ou na cooperativa do Clube Expresso, frente ao Hospital dos Capuchos, onde o Lourenço atendia os mais subversivos pedidos de títulos caídos em desgraça.

As cooperativas livreiras foi uma outra realidade no mundo dos livros proibidos. Éramos todos muito jovens, tínhamos 18 ou 20 anos. Foi a nossa grande escola política, diz Irene Rodrigues, que trabalhou, desde 1966, na Livrelco e está hoje na Livraria Buchholz, na Rua Duque de Palmela, em Lisboa.

Ainda uma palavra sobre os que começaram a sua luta contra a censura, através da Imprensa escrita, em suplementos literários ou juvenis e, na maior parte, são hoje figuras de mérito na cultura portuguesa. Uma velha guarda, ligada aos jornais, onde se incluem nomes como Óscar Lopes, Álvaro Salema, Augusto da Costa Dias, Mário Castrim, Nuno Teixeira Neves. A Seara Nova, com Câmara Reis, Rogério Fernandes e Augusto Abelaira, onde colaboravam, entre outros, Manuel Sertório, José Tengarrinha, Nuno Brederote Santos, Upiano do Nascimento (da Editorial Inova), Sottomaior Cardia, António Reis, José Garibaldi (da Editorial Estampa), Sérgio Ribeiro e Blasco Hugo Fernandes, (da Prelo Editora), e Jorge Reis e Joaquim Barradas de Carvalho, (ambos escrevendo do exílio), etc.

É de destacar, ainda, a presença, quer na imprensa literária, quer nas editoras, de José Saramago, Fernando Piteira Santos, Carlos Porto, Victor da Silva Tavares, Nelson de Matos, E. M. de Melo e Castro, Eduardo Prado Coelho, etc.

João Medina, Artur Portela Filho, Sttau Monteiro, Luís Francisco Rebelo, Bernardo Santareno, Fiamma Hasse Pais Brandão, por exemplo, viram também os seus trabalhos perseguidos pela censura e alguns pagaram caro a sua ousadia. A PIDE não os poupou.

Ainda entre os que fazendo escola na Imprensa haveriam de afirmar-se como escritores bem conhecidos e apreciados, recorde-se Baptista Bastos, Mário Ventura, Miguel Serrano, Daniel Filipe, Adelino Tavares da Silva. Ou José Carlos Vasconcelos e Fernando Assis Pacheco. Ou Joaquim Letria, Pedro Alvim, Afonso Praça, Cáceres Monteiro, César Príncipe, Manuel Geraldo, Josué da Silva, Ribeiro Cardoso, Nuno Gomes dos Santos, José Jorge Letria, Leonor Martinho Simões, Eugénio Alves, etc.

Mais nomes poderiam ser aqui citados num desfiar sem conta. A repressão da cultura e dos seus obreiros nas várias e distintas facetas foi uma saga feroz e indiscriminada que só parou quando os tanques do saudoso capitão Salgueiro Maia começaram a entrar vitoriosos no Terreiro do Paço de Lisboa.

terça-feira, 7 de maio de 2019

A a Z

A Língua Portuguesa de A a Z

Leio por aí que o dia 5 de Maio é o Dia da Língua Portuguesa. Pois bem: aqui ficam 23 palavras em homenagem à nossa língua, de A a Z…

Aprender. Nascemos sem palavras, num choro que se mistura com a dor, o amor e os nervos dos pais. Palavras? Nenhumas. Devagar, aprendemo-las e, com elas, o peculiar mecanismo a que chamamos língua portuguesa.
Beleza. Depois, quando crescemos, usamos esse mecanismo para comprar e vender, namorar e discutir, aprender e ensinar — e também para insultar e conspirar. Mas é também material da literatura, da música, de discursos de coração a bater, de frases sussurradas e que nunca esquecemos. A língua — e em especial a língua a que chamamos nossa — é uma das maneiras que temos de criar coisas belas neste mundo. Não é coisa pouca!
Camões. É a língua de Camões, não porque tenha sido inventada pelo poeta, mas porque era a língua que ele falava… Mas também é a língua do Martim Codax, do Gil Vicente, do Bernardim Ribeiro, do Manuel, da Maria, da Sara — e de todos os que a falam por esse mundo fora.
Descoberta. Diz-se e escreve-se muita coisa que não vale a pena. Mas, no meio de todos os livros que temos na nossa própria língua, há tanto a descobrir. Para começar, o próprio do Camões, que para lá de servir para chatear e para nomear de cada vez que falamos da língua, também serve para ler. E não é só Camões, claro — deixo apenas três sugestões, mais do que batidas, mas novíssimas de cada vez que alguém abre um destes livros: A Queda dum Anjo, de Camilo; A Relíquia, de Eça; Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Ah, e já agora, delicie-se com um livro bem mais recente, descoberto ontem mesmo por milhares de espanhóis, nas páginas do El País: A Sala Magenta, de Mário de Carvalho.
Escrita. Dos milhares de línguas da Terra, só uma minoria tem uma forma escrita. Temos essa sorte. Ainda por cima, ao contrário do que acontecia há 200 anos, uma grande maioria da população sabe escrever — e, hoje, escreve mesmo o dia inteiro. Daí, surgem dúvidas, hesitações e erros — e surge ainda o maior erro de todos: a convicção de que há quem nunca erre. Todos erram — uns mais do que outros, é bem verdade.
Filhos. E quem mais erra — e ainda bem! — são as crianças, ao começar a dominar esta língua, devagar, esforçando-se por aprender as regras, as excepções, os tabus, os truques e as delícias. É pela tentativa e erro que vamos lá — a língua é mesmo assim, qualquer coisa de muito humana, construída no dia-a-dia na cabeça e na boca de cada um de nós.
Galego. Esquecemo-nos de onde veio a língua — sim, veio do latim (que também já tinha vindo de outras línguas mais antigas, numa sucessão que segue por muitos milhares de anos enterrados no passado). Mas esse latim começou a ser cozido nas bocas dos falantes lá para cima, no nosso Norte, mas também na Galiza, onde ainda hoje se fala qualquer coisa de muito parecida com o português. É uma das surpresas guardadas no sótão da língua.
História. Uma língua que já existia quando Afonso Henriques se tornou rei — mas que não tinha o nome que tem hoje. Uma língua que veio lá das serranias do Noroeste da Península e desceu até ao Algarve, fazendo-se depois ao mar. Não é uma epopeia, é uma história feita de tanta gente que não cabe em poucas linhas — ou em muitas linhas. Fico-me, apenas, por estas letras, de A a Z, em homenagem a essa História.
Indignação. O português é também a tentativa — desesperada, inevitável — de o aprisionar nas páginas de dicionários e gramáticas. Não são esses livros que criam a língua, mas tiram-lhe o retrato. Depois, há quem se indigne quando a língua não se comporta sempre como aparece no retrato. Acontece isso com o português e com todas as línguas aqui à volta. Faz parte.
Jogo. A língua também é brincadeira. Às vezes, é até uma forma de passar o tempo, em conversas aos círculos, palavras que não acrescentam, mas que nos ligam uns aos outros nos momentos em que estamos juntos. E é também um jogo no recreio da escola, nas mensagens dos ecrãs, nas canções de embalar, nas anedotas ao jantar, nas frases dos namorados…
Letras. A língua começa nos sons e não nas letras — e, no entanto, são as letras que nos dão o aspecto da língua. As letras e tudo o que as acompanha — por exemplo, no português, temos a nossa conhecida cedilha e o til, criando, só como exemplo, esse conjunto — «-ção» — que nunca inicia uma palavra, mas permite reconhecer de imediato um texto como português.
Medo. Há quem tenha medo de escrever, não vá dar-se o caso de cair no temido erro. Pois bem: é certo e sabido que, sim, vai mesmo cair no erro. Não deixe de o combater, mas descontraia: a língua é demasiado importante e saborosa para se deixar de usar por receio dum qualquer tropeção. Fale (sem pudor). Leia (bons livros). Escreva (por prazer).
Nascimento. Uma língua como a nossa há-de ter nascido num certo momento da História, não é? E, no entanto, nunca nasceu — foi-se criando, devagar, na rua, a partir do que vinha antes e sempre a caminho do que vem depois. Parece uma banalidade, mas não é bem: o português — como todas as línguas — nunca chegou a um estado completo, final. Está sempre a transformar-se, devagar, noutra língua, ligeiramente diferente. Um processo inevitável — mas, valha-nos isso, muito lento… É por essa razão que ainda hoje conseguimos ler poemas que falam de ondas do mar de Vigo e é por isso que, daqui a alguns séculos, ainda há-de haver quem leia um ou outro livro que alguém está a escrever neste preciso momento.
Ondas. Desde o mar de Vigo ao mostrengo que está no fim do mar, a nossa língua tem qualquer coisa de onda e de água, de espuma e de areia. É só impressão minha, certamente, inscrita na minha cabeça por tudo o que já li na minha língua.
Palavrões. Aqui, nesta letra, podia ter deixado Pessoa, com essa frase escrita por uma das suas criações, transformada num dos mais enjoativos chavões da língua («Minha pátria é blá, blá, blá»). O arquipélago de poetas não merece tal sorte. Também podia ter escolhido a pureza, objectivo raras vezes confessado de quem gosta de limpar a língua, a mais desarrumada das criações humanas. Fico-me pelos palavrões — essa prova bruta da força das palavras, da maneira como a língua serve para levar a nossa imaginação, mesmo a menos recomendável, ao corpo e à mente das outras pessoas.
Queria — ou quer? A língua também são os seus mitos, as irritações, as ideias-feitas, as pequenas graçolas. Há quem não goste do simpático «queria» e prefira o «quero». Há quem insista em pedir um «copo com água», para se proteger do perigo de receber um copo feito de água. Há quem ande sempre à caça da falta de lógica da língua. Ora, como a língua não foi feita com um esquadro nem planeada por ninguém, o material à disposição desses caçadores é praticamente infinito…
Redundância. E o que gostam eles (os tais caçadores de imperfeições da língua) de procurar redundâncias! É um desporto divertido, mas um pouco absurdo: afinal, a redundância é essencial a todas as línguas humanas, como é apanágio de um sistema natural. Não fosse a redundância e a língua exigiria sempre silêncio absoluto, atenção sem falhas, falantes perfeitinhos. Não somos robots e dizemos muita coisa em modo de repetição. É mesmo assim…
Saudade. É comum dizer que a saudade é só portuguesa e não se traduz! E, no entanto, traduz-se. A língua é qualquer coisa de muito particular, mas é também universal: não há nenhum grupo de humanos sem língua e, até hoje, não se encontrou uma frase que fosse impossível de traduzir. Até as frases que levam dentro essa portuguesíssima «saudade».
Tradução. Pois é: as línguas são barreiras, mas temos esse bilhete de passagem que é a tradução — ou a aprendizagem de outras línguas. E, no entanto, dentro de cada língua, estão outras barreiras bem mais profundas e difíceis de ultrapassar: às vezes, é mais fácil pôr a conversar um português com um japonês do que um benfiquista com um sportinguista…
Universal. A língua — a nossa língua — separa-nos dos outros povos, é verdade. Há quem veja nisto uma tragédia humana, uma maldição antiga. E, no entanto, imagine-se um mundo em que todos aprendessem, numa geração, a mesma língua. Garanto: poucas gerações depois, as diferenças voltariam a aparecer. Novas línguas surgiriam… Mais vale aproveitar o melhor possível a nossa língua e olhar com curiosidade para as outras línguas todas.
Variação. A língua nunca é pura, varia sempre, de situação para situação (digo «a gente vai» a um amigo, mas não diria numa entrevista»), de pessoa para pessoa (a língua que aprendemos nunca é exactamente igual à língua do vizinho), de terra para terra, de ano para ano… Há quem desespere com esta língua sempre a mudar — mas sempre assim foi e sempre assim será.
X. A mais complicada das letras, com não sei quantos sons — mas também um símbolo do 10, do voto, de um tesouro… A língua esconde sempre mais qualquer coisa — mesmo dentro de uma só letra.
Zebra. A última letra é sempre a mais complicada. Acabamos em «zebra», uma palavra portuguesa que foi exportada para o inglês. Não é a única! E com este animal às riscas, como se fosse uma passadeira que ganhou pernas, termino esta pequeníssima brincadeira em 23 letras, uma homenagem a esta língua em que trabalhamos, namoramos, brincamos, cantamos — vivemos, pois então.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Benavente. Efeméride.

110 anos do sismo de Benavente

sismo  
2019-04-24 (IPMA)

Em 23 de abril de 1909, pelas 17:40, ocorreu o maior sismo do século XX com epicentro no interior do território continental, tendo atingido uma magnitude 6.0 (magnitude momento sísmico) e uma intensidade máxima X (Escala de Mercalli modificada, 1931) na zona de Benavente e Samora Correia. O campo macrossísmico foi particularmente extenso, tendo havido efeitos materiais (intensidade VI ou superior) em Lisboa, Setúbal e Évora.
O terramoto foi também bastante sentido em Espanha, com intensidade V (MM, 31) numa área bastante vasta, desde a fronteira com Portugal abarcando Cáceres e Ciudad Real. O sismo provocou cerca de 40 vítimas mortais, tendo gerado enorme destruição na zona epicentral.
O facto de ter ocorrido durante a tarde, em que grande parte da população local estava a trabalhar nos campos agrícolas, pode ter ajudado ao relativamente baixo número de vitimas mortais considerando o nível de destruição que foi observado. A atividade sísmica que se seguiu foi particularmente intensa tendo-se registado cerca de 270 réplicas durante os primeiros 12 meses após o sismo. Em anexo apresentamos um testemunho da época, extraído do "caderno da casa agrícola e assuntos pessoais" de António Plácido Pinto de Azevedo (1880-1929).

terça-feira, 23 de abril de 2019

Livros.

Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor (também chamado de Dia Mundial do Livro) é um evento comemorado todos os anos no dia 23 de Abril, e organizado pela UNESCO para promover a o prazer da leitura,[1] a publicação de livros e a protecção dos direitos autorais. O dia foi criado na XXVIII Conferência Geral da UNESCO que ocorreu entre 25 de Outubro e 16 de Novembro de 1995.[2]
A data de 23 de Abril foi escolhida porque nesta data do ano de 1616 morreram Miguel de Cervantes, William Shakespeare e Garcilaso de la Vega.[3] Para além disto, nesta data, em outros anos, também nasceram ou morreram outros escritores importantes como Maurice Druon, Vladimir Nabokov, Josep Pla e Manuel Mejía Vallejo.[4]
Todos os anos são organizados uma série de eventos ao redor do mundo para celebrar o dia.[1][5]

sábado, 20 de abril de 2019

Um Senhor que governou e nada roubou.


«Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia, não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente.
Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção. Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre.
Jamais empreguei o insulto ou a agressão de modo que homens dignos se considerassem impossibilitados de colaborar. No exame dos tristes períodos que nos antecederam esforcei-me sempre por demonstrar como de pouco valiam as qualidades dos homens contra a força implacável dos erros que se viam obrigados a servir. E não é minha a culpa se, passados vinte anos de uma experiência luminosa, eles próprios continuam a apresentar-se como inteiramente responsáveis do anterior descalabro, visto teimarem em proclamar a bondade dos princípios e a sua correcta aplicação à Nação Portuguesa. Fui humano.
Penso ter ganho, graças a um trabalho sério, os meus graus académicos e o direito a desempenhar as minhas funções universitárias. Obrigado a perder o contacto com as ciências que cultivava, mas não com os métodos de trabalho, posso dizer que as reencontrei sob o ângulo da sua aplicação prática; e, folheando menos os livros, esforcei-me em anos de estudo, de meditação, de acção intensa, por compreender melhor os homens e a vida. Pude esclarecer-me.
Não tenho ambições. Não desejo subir mais alto e entendo que no momento oportuno deve outrem vir ocupar o meu lugar, para oferecer ao serviço da Nação maior capacidade de trabalho, rasgar novos horizontes e experimentar novas ideias ou métodos. Não posso envaidecer-me, pois que não realizei tudo o que desejava; mas realizei o suficiente para não se poder dizer que falhei na minha missão. Não sinto por isso a amargura dos que merecida ou imerecidamente não viram coroados os seus esforços e maldizem dos homens e da sorte. Nem sequer me lembro de ter recebido ofensas que em desagravo me induzam a ser menos justo ou imparcial. Pelo contrário: neste país, onde tão ligeiramente se apreciam e depreciam os homens públicos, gozo do raro privilégio do respeito geral. Pude servir.
Conheci Chefes de Estado e Príncipes e Reis e ouvi discretear homens eminentes de muitas nações, ideologias e feições diversas sobre as preocupações de governo, os problemas do Mundo ou as dificuldades dos negócios. Pude comparar.
E assim, sem ambições, sem ódios, sem parcialidades, na pura serenidade do espírito que procura a verdade e da consciência que busca o caminho da justiça, eu entendo que posso trazer ao debate um depoimento.»




António de Oliveira Salazar in «Discursos e Notas Políticas».

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Notre - Dame

 

 

Há coisas que a mim me fazem confusão… porque não ardem mesquitas, templos maçons, porque só as igrejas católicas são auto-inflamáveis?!



Continuo com tantas dúvidas em tantos temas, por exemplo, anda tudo preocupado com o dinheiro oferecido para a reconstrução da Catedral que podia servir para matar a fome a crianças, mas não se importam de dinheiro roubado através de impostos aos mais pobres através do IVA, IMI, nas bombas de gasolina, o dinheiro roubado através de impostos não preocupa, o que é dado, sem coerção, aqui del rei…
Não se preocupam absolutamente nada com gastos em arraiais faraónicos pagos pelo contribuinte mas estão muito preocupados com o dinheiro doado por privados…agora já sabem que há fome e miséria e hospitais sem meios? Ficaram espertos de repente…
Serão os mesmos que não se preocuparam que os estados roubassem a Igreja católica e todas as suas ordens religiosas, com Igrejas, conventos, a cair de podres, ou transformando-as em casernas, ou prisões, entre outros fins porno**áficos?
Serão os mesmos que andam muito preocupados apenas com a pe**filia na Igreja católica, e não perguntam qual é a taxa de ped**ilia nas igrejas protestantes, na maçonaria quantos são pedófilos, os templos maçons são fechados a sete chaves, será para esconder algumas práticas que promovem, na classe política, por exemplo qual é a percentagem de pe**filos? Sendo a classe política quase toda filiada nas lojas era interessante saber quantos são pedófilos, a favor da sharia…
Serão os mesmos que tanto se preocupam agora com a catedral e quando as cruzes são apagadas a photoshop dos iogurtes gregos pelo LIDL, pela Nestlé, não acham nada de mal…



Gago Coutinho



terça-feira, 16 de abril de 2019

Plano Kalergi.



https://www.youtube.com/watch?v=aLLhqH3-lkA




                                                       Para quem quiser entender !



quinta-feira, 11 de abril de 2019

O ciclista ...Vai em silêncio como nos sonhos.



                          Sei muito bem o que significam os sentimentos aqui descritos. 

A minha companheira.

Em passeio.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Cancro digestivo. Atenção aos sintomas.


Notícias ao Minuto
Há 11 Horas por Liliana Lopes Monteiro  
Lifestyle Doenças que matam
O cancro digestivo representa 10% da mortalidade portuguesa, um grave problema de saúde pública que tem registado uma subida nos últimos anos e que agrupa três das doenças que mais matam no nosso país: cancro do Cólon e do Reto, cancro do Estômago e cancro do Fígado.
O cancro do Colón e do Reto é a primeira causa de morte por cancro no nosso país, com uma incidência de cerca de sete mil novos casos por ano e um registo de quatro mil mortes anuais, sendo detetado principalmente a partir dos 50 anos. Contudo, este é provavelmente o tipo de cancro que será mais fácil de evitar com medidas adequadas de prevenção.
"O tabagismo, a obesidade, a diabetes mellitus tipo 2 e a alimentação rica em gorduras e carne vermelha são historicamente associados ao aparecimento de cancro colo-retal, embora estas associações não estejam tão bem estabelecidas", alerta Sandra Custódio.
Os sintomas são variados, mas marcantes. "A perda de sangue nas fezes é um sinal de alarme, que deve fazer o utente recorrer ao médico assistente num curto espaço de tempo, uma vez que corresponde à forma de apresentação mais comum. Alteração dos hábitos intestinais (alternância entre diarreia/obstipação), cólicas abdominais e sensação de esvaziamento intestinal incompleto, correspondem também a sintomas de alerta. O cansaço, a perda de apetite, e a perda de peso, não explicadas por outra causa, estão geralmente associados a uma doença mais avançada", explica a médica.
A verdade é que morre um português por hora vítima de cancro digestivo: os números são gritantes e é necessário criar medidas para os travar - Sandra Custódio explica em entrevista ao Lifestyle ao Minuto tudo aquilo que deve saber sobre este cancro tantas vezes fatal.
O que é o cancro colo-retal?
O cólon e o reto fazem parte do aparelho digestivo e compõem o intestino grosso. O cólon é a primeira porção do intestino grosso (120 a 150 cm) e o reto a última parte (10 a 12 cm).
O cancro do cólon e reto começa frequentemente num pólipo que é um crescimento anómalo de tecido epitelial na parede do intestino. Nem todos os pólipos se transformam em cancro. Os pólipos podem ser removidos antes de se tornarem malignos. Se forem identificadas células malignas no pólipo removido, o doente pode ficar curado, desde que este seja superficial. Quando os pólipos não são removidos e sofrem transformação maligna, podem invadir as várias camadas do órgão e podem disseminar-se pelo organismo.
Quais os órgãos que afeta?
Afeta o intestino grosso (cólon e reto). Quando se torna uma doença avançada com capacidade de disseminação, os órgãos mais frequentemente afetados são o fígado e o pulmão, podendo atingir qualquer órgão.
Quais são os sintomas deste tipo de tumor?
A perda de sangue nas fezes é um sinal de alarme, que deve fazer o utente recorrer ao médico assistente num curto espaço de tempo, uma vez que corresponde à forma de apresentação mais comum. Alteração dos hábitos intestinais (alternância entre diarreia/obstipação), cólicas abdominais e sensação de esvaziamento intestinal incompleto, correspondem também a sintomas de alerta. O cansaço, a perda de apetite, e a perda de peso, não explicadas por outra causa, estão geralmente associados a uma doença mais avançada.
Quais são as causas para o aparecimento desta patologia? Existem fatores de risco que contribuem para o seu aparecimento?
A idade é o principal fator de risco, em que 90% dos casos são diagnosticados em indivíduos com mais de 50 anos. Outros fatores de risco a ter em conta são a Doença Inflamatória Intestinal, como a Colite Ulcerosa e a Doença de Crohn, e história familiar de cancro colo-retal, sobretudo em familiares de primeiro grau e/ou idades de diagnóstico jovens (<50 2="" a="" alimenta="" anos="" ao="" aparecimento="" associa="" associados="" bem="" cancro="" carne="" colo-retal="" de="" diabetes="" e="" em="" embora="" es="" estabelecidas.="" estas="" estejam="" gorduras="" historicamente="" mellitus="" n="" o="" obesidade="" p="" rica="" s="" t="" tabagismo="" tipo="" vermelha="">Geralmente surge em que idade?
A grande maioria surge em indivíduos com mais de 50 anos, sendo a idade mediana de diagnóstico 72 anos. No entanto, pode surgir em qualquer idade, não devendo ser descurados os sintomas e sinais de alarme já referidos, que justificam investigação.
Afeta igualmente ambos os sexos?
É mais frequente nos homens que nas mulheres. Nos países desenvolvidos, cerca de 1 em cada 20 homens e 1 em cada 35 mulheres irá desenvolver cancro colo-retal ao longo da vida.
Também afeta crianças?
O Cancro colo-retal raramente afeta crianças. Está associado a alterações genéticas/hereditárias e história familiar de cancro em idades jovens. É geralmente mais agressivo e associado a um pior prognóstico, quando comparado com os adultos. Dada a sua raridade, o grau de suspeição é baixo, conduzindo a diagnósticos mais tardios.
Em Portugal qual é a incidência deste tipo de cancro?
O cancro colo-retal é o cancro mais frequente em Portugal, com cerca de 7000 novos casos/ano. Corresponde à primeira causa de morte por cancro, sendo responsável por cerca 4000 mortes/ano.
E no mundo?
O cancro colo-retal, é o terceiro mais comum no mundo, e a quarta causa de morte por cancro. A incidência mantém tendência crescente, com 1.8 milhões de novos casos/ano.
É geralmente fatal?
O prognóstico e a possibilidade de cura, vai depender do estadio (extensão) da doença. Quando diagnosticada precocemente, a taxa de cura ronda os 90%.
Atualmente, com a aposta em programas de rastreio e com a educação para a saúde, alertando para os sinais de alarme (perda de sangue nas fezes, alterações dos hábitos intestinais…), que devem fazer os utentes recorrer ao médico, a taxa de cura ultrapassa os 60%.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico definitivo de cancro é realizado a partir da análise histológica de tecido, obtido através de uma biópsia. Esta biopsia poderá ser da lesão tumoral primária do intestino (acessível por colonoscopia) ou, mais raramente e em caso de doença avançada, de alguma lesão metastática à distância, como do fígado ou do pulmão. Exames de imagem, como o TAC e a ressonância magnética, no caso do reto, são essenciais para o estadiamento da doença, ou seja, para definir qual a extensão da doença, por forma a decidir qual a melhor estratégia terapêutica.
Quais são os tratamentos mais eficazes?
O tratamento vai sempre depender do estadio (extensão) da doença. Hoje em dia a estratégia terapêutica deve ser delineada em Consultas de Grupo Multidisciplinares, onde estão presentes profissionais de saúde de diversas áreas e especialidades (Oncologia, Radioncologia, Cirurgia, Gastrenterologia, Radiologia, Anatomia Patológica, Psicologia, etc). Está demonstrado que a discussão multidisciplinar pode alterar o tratamento de cada situação e aumenta a sobrevivência global, sobretudo em situações de doença avançada.
Em situações de cancro precoce, a exérese de pólipo por colonoscopia, pode ser o único tratamento necessário. Na maioria dos casos o tratamento que vai ditar a cura é a cirurgia. É essencial a remoção do tumor com margens livres e de gânglios linfáticos regionais.
No caso de doenças localmente avançadas (gânglios regionais metastizados, ou presença de outros fatores de risco) o tratamento é geralmente multimodal. Engloba a cirurgia, a realização de quimioterapia, e no caso do cancro do reto deve ser equacionada a possibilidade de realização de radioterapia associada ou não à quimioterapia, antes do tratamento cirúrgico. A combinação destes tratamentos reduz o risco de recidiva e aumenta a sobrevivência global. Em situações de metastização à distância, falar em cura é mais difícil, no entanto, está demonstrado, que quando possível, há benefício em erradicar toda a doença visível (tumor primário e metástases). Para isso podem ser combinadas várias armas de tratamento: quimioterapia associada ou não a outros tratamentos sistémicos (anticorpos monoclonais), cirurgia (tumor primário e/ou metástases), radioterapia (tumor primário e/ou metástases), técnicas de ablação, etc. O tratamento multimodal pode conduzir à cura, e quando isso não é possível, aumenta o tempo livre de doença e a sobrevivência global.
Qual é o prognóstico para o futuro, há esperança de se vir a encontrar uma cura?
A melhor forma é apostar na sua prevenção, evitando os fatores de risco conhecidos, e no seu diagnóstico precoce. É essencial a promoção de hábitos de vidas saudáveis: dieta equilibrada, prática regular de exercício físico, qualidade do sono (cerca de 8 horas diárias).
Em Portugal, está implementado um programa de rastreio, cujo principal objetivo é o diagnóstico de lesões pré-malignas ou de lesões malignas em estadio inicial. Este programa assenta na realização de Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes a indivíduos assintomáticos entre os 50 e os 74 anos, a cada 2 anos. Sempre que o teste for positivo, é mandatória a realização de uma colonoscopia total diagnóstica. Este exame para além de fazer o diagnóstico de lesões malignas, deteta pólipos adenomatosos, que podem ser removidos durante o exame. Estes pólipos adenomatosos correspondem a lesões precursoras de cancro, que quando identificadas e excisadas atempadamente, é evitada a sua progressão para cancro.
Para o caso de doenças mais avançadas, existem cada vez mais ferramentas de diagnóstico e monitorização de doença, assim como novos tratamentos.
Um exemplo é a utilização da biópsia líquida, uma ferramenta inovadora, que no cancro colo-retal, começa a dar os primeiros passos na prática clínica. Distingue-se das biópsias de tecido convencionais, por ser uma técnica simples, não invasiva, cujos resultados poderão estar disponíveis rapidamente. Esta técnica consiste numa colheita de sangue e posterior análise do material genético tumoral em circulação. Em alguns casos, permite a caracterização do perfil molecular do tumor, e consequentemente contribui para uma escolha terapêutica mais diferenciada e célere, de acordo com as alterações encontradas, aumentando assim a probabilidade de sucesso. Assim, prevê-se que a utilidade das biópsias líquidas venha a ser, num futuro próximo, bastante abrangente, com impacto a nível do diagnóstico, do tratamento e monitorização da doença ao longo do tempo, podendo inclusive antecipar a sua progressão.
A evolução e desenvolvimento deste tipo de técnicas, em várias áreas da Oncologia, antecipam que a Medicina de Precisão será também uma realidade no cancro colo-retal, em que o tratamento desta doença será adaptado a cada indivíduo, com a perspectiva de potenciar a eficácia e minimizar os efeitos secundários.

domingo, 24 de março de 2019

Era bom ?

   O hábito de ir " às hortas " representou uma forma típica de convivialidade dos lisboetas. Pelas memórias que ficaram desses passeios às hortas - ou aos retiros, citadinos -, dos seus frequentadores e dos petiscos ali consumidos, tudo indica se tratar de um hábito bem vincado nos anos de Oitocentos, até esmorecer nas primeiras  décadas da centúria seguinte. Contudo, é possível remontar mais longe nesta memória de práticas de lazer. No século XVI, contavam-se por já " antigas " as festas que os pescadores de Alfama dedicavam a S. Pedro Gonçalves, dirigindo-se com a sua imagem às hortas de Enxobregas, e " de lá traziam enramado de coentros frescos (... ) dançando e bailando. * (1 )


   A procura dum Domingo bem passado, quando o bom tempo o permitia, sob a sombra fresca dum caramanchão, gozando do cenário hortícola propriamente dito, com a nora de água fresca por perto e ramadas de videira, em que se improvisava o estabelecimento de comes e bebes, lugar de lazer eleito para quem se deixava atrair pela fama de um bom petisco, dum canjirão de vinho do termo, em companhia de amigos, frequentemente também embalado pela música de improviso e do cantar fadisteiro de animadores da pândega. (...) * (2 )
... Vizinhanças bucólicas da cidade.

   O gosto pelo passeio até às vizinhanças bucólicas da cidade tocava todas as classes, à maneira e de acordo com as respectivas posses. (... ) As " hortas " eram particularmente concorridas pelo povo. Tratava-se de um verdadeiro passeio, frequentemente a pé, até esses locais das redondezas.

...que dava primorosas laranjas.

   Bulhão Pato documenta-nos o ambiente físico e social da horta e quinta da Rabicha, situada sob o arco grande do Aqueduto das Águas Livres, por volta de 1848. " toda colmatada de um odorífero e viçoso pomar, que dava primorosas laranjas, água abundante e corrente (...) o sumptuoso " hotel, ao ar livre, debaixo de um parreiral, ao pé do tanque, sempre transbordando de água, fornecia as pescadinhas de rabo na boca, ovos duros, queijo saloio, pão de Belas, alface repolhuda. "  Noutro passo, o poeta, autor destas memórias, especificava, quanto aos custos: " um cruzado novo - 480 réis - sobrava para quatro homens comerem e beberem à farta. ( ... ) Vinho, fora de portas - e as portas eram logo ali em Alcântara - trinta réis a canada; pão a vinte e cinco; uma pescada do alto, de lombo negro, que chegava para uma família regular, seis vinténs. * ( 3 ).

* (4 ) -_Só a título comparativo pontual, e de acordo com várias fontes, o salário diário médio de um operário, nesta altura rondava 280rs., o dum aprendiz podia reduzir-se a metade desse valor; um " empregado ", por sua vez, poderia auferir 1000rs.





* 1- Luís Chaves, " O  Culto Popular de São Padro Gonçalves Telmo, o Santelmo " , Lisboa nas Auras do Povo e da História - Ensaios de Etnografia, vol,  III , Lisboa. Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1966, p. 103.

* 2 - Irisalva Moita, O Povo de Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1979

* ( 3 ) Raimundo António de Bulhão Pato, " A Quinta da Rabicha  - João de Amboim ", Memórias, vol I, pp. 67 - 68.

* ( 4 ) Manuel Paquete " Cozinha Saloia "

Quadros e foto de minha autoria.