Desde o Início.
Todo o tudo é um eu - o que há, é inúmeros eus, ou para ser absolutamente exacto, um só...Quem? - O Poeta?! - O Filósofo??...-???...
Existir como apenas Deus pôde, antes da criação:
sem antepassados, sem posteridade, sem mundo:
sem.
E no entanto, ele mesmo tudo, todo o tudo:
antepassados, posteridade, mundo.
se algumas dúvidas restavam ainda, esclareça-se:
é isso que é ser poeta. O que ele disse quando lhe pediram que demonstrasse:
Foi... E atravessou passo a passo um continente,
apenas para medir o comprimento
dos seus passos.
Eram alguns, mas não muitos- nunca são muitos, aqueles que de algum modo se importam - pouco importa; mais exactamente, apenas dois aqui nos importam.
Um, dizia demoradamente que ele: todo o mundo. O outro, ouvia-o, e pacientemente tomava notas, não sem que, manifestasse de quando em quando, sintomas de uma surda discordância.
Quando por fim, aquele que dizia, decidiu que não havia mais nada para dizer, e por isso deu por concluído o seu discurso, isto é, interrompeu-o sob a forma de uma conclusão; o outro, olhou-o sem palavras. O que ele diria, não o disse, porque nada disse. No entanto, o que todo ele dizia, era o desprezo e o espanto imensos de como teria sido possível - de como teria sido possível ter-se chegado ao fim, sem se ter sequer aflorado o Princípio. Nada.
Nada ali, lhe parecera sequer o mais vago indício, de qualquer Questão Fundamental.
Um delírio apenas, talvez vagamente poético- não sabia, não queria saber -, sabia, isso sim, que fora nada mais que um delírio, uma espécie de acrobacia sem gravidade terrestre, sem peso, sem o atrito das coisas - em poucas palavras: ali se desvaneciam todos os problemas
incontornáveis que conhecia, mas apenas na medida em que se tornava a própria Realidade.
E não se conteve, não se poderia conter - era-lhe insuportável que se ignorassem assim, com tamanha simplicidade, os seus enormes problemas: o Problema, em torno do qual se ocupara toda a vida, de demonstrar a impossibilidade da sua vida. Era-lhe igualmente insuportável, todo o tempo que ali dedicara minuciosamente ao inútil, todo o tempo que ali perdera longe da sua tarefa: A Tarefa, a única merecedora desse nome -, e decorridos alguns instantes apenas, perguntou mortífero:
- e então?!
O outro,olhou-o como se ele não estivesse ali - como se ele nunca tivesse existido-, e repetiu pausadamente:
- e então?
Então não percebeu nada. E ainda ele, estupefacto, deslocava o olhar para as suas notas, na procura desesperada de prova alguma. de pergunta alguma - e havia-as a todas por perguntar ainda-, já o outro repetia, mas desta vez num tom de voz mais baixo, como se falasse apenas consigo mesmo.
- e então?
- Então eu. É tudo. Posto o que se levantou, e se foi embora.
Depois disto foi o silêncio: nem um sim, nem um não, nem outra coisa alguma, nem nada.
Contudo, se alguém tivesse ousado a palavra, teria sido exacto, se assim tivesse descrito o que se passara: um perguntava perguntas; o outro era a resposta. Eis porque não tinham nada a dizer um ao outro.