segunda-feira, 7 de abril de 2014

Ser poeta é ...

Desde o Início.

                                                         



    Todo o tudo é um eu - o que há, é inúmeros eus, ou para ser absolutamente exacto, um só...Quem? - O Poeta?! - O Filósofo??...-???...
                    - Não! eu mesmo.
                                

                                 Existir como apenas Deus pôde, antes da criação:
                                 sem antepassados, sem posteridade, sem mundo:
                                 sem.
                                 E no entanto, ele mesmo tudo, todo o tudo:
                                 antepassados, posteridade, mundo.
                                 se algumas dúvidas restavam ainda, esclareça-se:
                                 é isso que é ser poeta.  O que ele disse quando lhe pediram que demonstrasse:
                                 Foi... E atravessou passo a passo um continente,
                                apenas para medir o comprimento
                                dos seus passos.




Eram alguns, mas não muitos- nunca são muitos, aqueles que de algum modo se importam - pouco importa; mais exactamente, apenas dois aqui nos importam.
   Um, dizia demoradamente que ele: todo o mundo. O outro, ouvia-o, e pacientemente tomava notas, não sem que, manifestasse de quando em quando, sintomas de uma surda discordância.
   Quando por fim, aquele que dizia, decidiu que não havia mais nada para dizer, e por isso deu por concluído o seu discurso, isto é, interrompeu-o sob a forma de uma conclusão; o outro, olhou-o sem palavras. O que ele diria, não o disse, porque nada disse. No entanto, o que todo ele dizia, era o desprezo e o espanto imensos de como teria sido possível - de como teria sido possível ter-se chegado ao fim, sem se ter sequer aflorado o Princípio. Nada.
   Nada ali, lhe parecera sequer o mais vago indício, de qualquer Questão Fundamental.
   Um delírio apenas, talvez vagamente poético- não sabia, não queria saber -, sabia, isso sim, que fora nada mais que um delírio, uma espécie de acrobacia sem gravidade terrestre, sem peso, sem o atrito das coisas - em poucas palavras: ali se desvaneciam todos os problemas 
incontornáveis que conhecia, mas apenas na medida em que se tornava a própria Realidade.
   E não se conteve, não se poderia conter - era-lhe insuportável que se ignorassem assim, com tamanha simplicidade, os seus enormes problemas: o Problema, em torno do qual se ocupara toda a vida, de demonstrar a impossibilidade da sua vida. Era-lhe igualmente insuportável, todo o tempo que ali dedicara minuciosamente ao inútil, todo o tempo que ali perdera longe da sua tarefa: A  Tarefa, a única merecedora desse nome -, e decorridos alguns instantes apenas, perguntou mortífero:

  - e então?!

   O outro,olhou-o como se ele não estivesse ali - como se ele nunca tivesse existido-, e repetiu pausadamente:
  
 - e então? 

Então não percebeu nada.   E ainda ele, estupefacto, deslocava o olhar para as suas notas, na procura desesperada de prova alguma. de pergunta alguma - e havia-as a todas por perguntar ainda-, já o outro repetia, mas desta vez num tom de voz mais baixo, como se falasse apenas consigo mesmo.

- e então? 

- Então eu. É tudo. Posto o que se levantou, e se foi embora.
 Depois disto foi o silêncio: nem um sim, nem um não, nem outra coisa alguma, nem nada. 

Contudo, se alguém tivesse ousado a palavra, teria sido exacto, se assim tivesse descrito o que se passara: um perguntava perguntas; o outro era a resposta. Eis porque não tinham nada a dizer um ao outro.