sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Pescadores de outros tempos.

 " As chalupas francesas" .
  Até meados do ano de 1940, estavam sempre presentes no nosso horizonte marítimo as silhuetas das chalupas francesas da pesca da lagosta, que identificávamos pela pequena vela da ré chamada " catita ", sempre içada dia e noite, para diminuir o balança das embarcações.
   Estas chalupas eram barcos relativamente grandes, medindo cerca de vinte metros de comprimento e cujas excepcionais qualidades de navegação lhes permitia manterem-se ao largo da nossa costa, mesmo durante os grandes temporais dos meses de Inverno.

   Possuíam um viveiro para as lagostas dentro do próprio casco, que consistia numa zona estanque em relação ao restante do barco, mas com furos no costado por onde entrava e saia a  água do mar. Aí era guardado o marisco vivo até ao seu regresso aos portos de armamento, situados na região da Bretanha francesa.
  Estes pescadores franceses eram notados pelo seu carácter rude, habitual nos bretões, mas reconhecidos como autênticos  " lobos do mar ". (  ... ) Naquele tempo ( anos 30 ) os nossos barcos transportavam a sardinha fresca para isco da pesca da lagosta numa pequena coberta à proa das lanchas locais, e quando alguma destas se cruzava com uma chalupa francesa, era frequente abordarem entre si e dessa confraternização resultar que os nossos davam sardinha  aos franceses que estes comiam crua, ficando com o sangue delas a escorrer pelos cantos da boca, causando o espanto dos locais. Em contrapartida os franceses davam aos nossos " corned -beef " ( carne enlatada ).

   Mas, também segundo relatos da época, essa convivência nem sempre terá sido pacífica ao longo desta parte da costa, pois os pescadores da Assenta, que é um pequeno porto precário a norte da Ericeira, tinham a fama de destruir  os " covos " de madeira, da pesca da lagosta, dos franceses, dizendo-se então que estas perseguiam os da Assenta nos " canots " a motor, com os locais em desvantagem por se deslocarem em lanchas a remos. Estes por sua vez respondiam à perseguição lançando ao mar, na direcção dos perseguidores, paus de dinamite ( clandestino ) que teve muito uso na pesca do cerco e local, o que era rigorosamente proibido por lei.

   A presença destas chalupas na nossa costa acabou em Junho de 1940, quando a França se rendeu aos invasores alemães durante a Segunda Guerra Mundial, tendo nós assistido, algum tempo depois, à passagem de algumas destas embarcações ao largo, a caminho de Cascais, onde foram internadas as respectivas tripulações repatriadas para França.
   As chalupas francesas não voltaram mais à nossa costa, nem mesmo depois do fim da guerra, em 1945. Tivemos notícias delas por ocasião da " guerra das lagostas " entre franceses e brasileiros durante os anos 50, com origem na pesca destes crustáceos pelos franceses no litoral brasileiro, era então presidente da França o General  Charles de Gaulle. *

Pequeno excerto do livro de: José Caré Júnior
                                Titulo. Memórias da Ericeira marítima e
                                                                                      piscatória.
                                                                                     Séc. XIX - XX
                            Colecção: Lugares de Memória
                              Editora. Mar de Letras
                              Editor:  António Carlos Serra.

 Corresponde o livro à 1ª edição datado de Março do ano 2000.
As imagens que escolhi para ilustrar estas memórias recolhi-as em: " marinha de guerra portuguesa blogspot"; www pescaemsintra.com. o que agradeço.