terça-feira, 1 de setembro de 2015

Amigos para Setembro

Donec eris felix ...Há um fundo de verdade neste lugar comum, mas também no conceito oposto. Um homem de sucesso nunca terá falta de gente ansiosa de estar à sua volta, seja para dele usufruir, ou pelo simples prazer de mergulhar na sua influência.
   Pelo contrário nada há a ganhar na companhia de um homem na adversidade. Mas, por outro lado, um infeliz é um ser inferior, e por isso não chega a desagradar. Os que têm piedade dele, gozam mais as vantagens que sobre ele têm, tal como os que visitam um doente se sentem mais aconchegados na sua saúde.
   Temos muitos amigos para nos desejar que não sejamos atropelados nem afogados; resta-nos ainda um bom número para nos desejar uma prosperidade medíocre; mas para nos desejar toda a felicidade que se possa ter, só os nossos  verdadeiros amigos.
   Se apesar de todos os nossos esforços não alcançarmos nada, será opinião geral que é muito azar. Mas se os nossos negócios tomarem um rumo melhor, então, esses mesmos que lamentavam o nosso azar, passam a achar excessiva a nossa sorte: o sentimento de justiça que sofria por nos ver acabrunhados não deixa de se irritar com a nossa boa fortuna.
Amizade antiga.

   E no fim, não resistem, e juntam-se aos nossos inimigos. Assim, não há dúvida que, se o sucesso nos traz amigos, ele também nos tira amigos, e podemos mesmo dizer que tais partidas marcam uma mudança no nosso destino, tal como a migração dos pássaros marca uma mudança de estação. Existe muita generosidade aparente, mas muita pouca generosidade real em socorrer um infeliz.
É demasiado fácil.( ... ) Mas quando um amigo nos desmente aquilo que dele pensávamos, o nosso próprio conceito de humanidade é abalado, e o número de homens existentes apenas nos leva a sentir ainda mais horrivelmente a nossa solidão ( ... ) O solitário é como o astrónomo, tem os olhos cheios de estrelas. Ele não está só; mas ele já só tem amizades sublimes. ( ... ) Resta-lhe, se for poeta, o encantador poder de conquistar amizades para além dos homens; com o se sentir isolado enquanto puder contemplar o abastado povo das nuvens ou admirar uma paisagem repleta do vago sorriso das coisas, ou ainda participar nesta festa que são os campos em flor, perto dos quais os bailes mais faustosos pareceriam tristes e poeirentos?  Se não for capaz de tais alegrias ingénuas, resta-lhe o austero paraíso das bibliotecas, a vasta elite dos mortos e das noites de estudo onde todos os génios se reúnem `a volta dum candeeiro. *

A Amizade
Autor Abel Bonnard.
Ano  de 1923.