quarta-feira, 5 de março de 2014

ROMA. Cultos. Arte. Conceitos


                           DAS DIFERENTES FORMAS PORQUE SE RENDIA O CULTO


   Os romanos honravam os deuses por actos internos e externos de culto, que são os seguintes:

  1º  Adoração  ( Adoratio ) - Consistia em levar a mão à boca ( ad os, ou ad ora ) e beijá-la; o adorador  colocava-se de pé, de joelhos ou prostava-se, depois de ter volteado em roda do altar e da imagem; levava a cabeça coberta, com um véo sobre o rosto pelo receio de ser distraido por algum objecto inoportuno; ou  para não ser interrompido por algum agouro sinistro.

  2º Votos  ( Vota ) - Eram as promessas  feitas aos deuses para aquisição de alguma graça, ou para algum sucesso feliz; o que fazia o voto, dizia-se  voti reus, e o que o cumpria  voti damnatus.

 3º  Orações  ( Preces ) - Eram  quaisqueres suplícas dirigidas aos deuses, n'este acto tocava-se frequentes vezes com as mãos nos altares.


  4º  Acções de Graças  ( Supplicatio ) - Tinham lugar para honrar o general que tinha  obtido alguma grande vitória, a quem o senado dava o titulo de imperador; era uma  manifestação de regozijo publico em que se abriam os templos para dar graças aos deuses.

  5º  Preces publicas  ( Obsecrationes  ) - Tinham lugar quando a república era oprimida por alguma calamidade. Abriam-se os templos, tiravam-se as imagens dos altares, e colocavam-se sobre uns coxins  ( pulvinaria ) ;  a que se seguia um banquete em honra dos deuses, e para o qual eles se supunham convidados.
   Esta cerimónia de deitar os deuses sobre os coxins chamava-se  lectisternium, e na ocasião solene em que ela tinha lugar, punham-se mesas cobertas de iguarias em todos os bairros da Cidade, nas quais admitiam todos os cidadãos indiferentemente; era um dia de reconciliação em que se tratavam os inimigos como amigos, e em que se dava liberdade aos prisioneiros.
   Pretendem alguns arqueólogos que o lectisternium também tinha lugar nas acções de graças.

6º  Sacrifícios  ( Sacrificia, ou Sacra  )  - Eram todas as cerimónias para honrar os deuses, em que se ofereciam vitimas cruentas, ou incruentas: n'eles consistia, pela maior parte, o culto romano.
 


ARTE. Conceitos.

    As  duas grandes fontes do belo  são a natureza e a arte; e, desde Platão, filósofos e artistas tentaram assinar a cada uma delas os próprios limites, a própria missão.
   Erraram todos aqueles que, num álveo comum, quiseram reunir os dois grandes rios estéticos; e erraram igualmente todos os outros, que os quiseram separar com diques insuperáveis, que impedissem o mínimo contacto entre as duas águas.
   Parece-me, ao revés, que natureza e arte, antes de se separarem uma da outra, teem uma nascente comum, como dois rios que do mesmo glaciar, mas por diverso declive, levam suas águas ao oceano.
  O belo da arte não é, não deve ser diverso do da natureza, porque é uma escolha deste, é um dos seus elementos, uma das suas faces.
   Erra Platão, quando reduz a arte a uma simples imitação da natureza; erram ainda mais todos os outros que crêem a arte essencialmente criadora, e lhe concedem todas as temeridades, dizendo que só o possível marca os seus confins.
   A arte não é mais que uma filha da natureza, porque o próprio artista é homem, e, portanto, filho também ele, da grande Mãe, que gera todas as criaturas terrestres. Nós fazemos parte da natureza, da qual, pelo menos no nosso planeta, somos o organismo mais elevado e mais complexo.
   Ora o artista, depois de ter visto, admirado e estudado as coisas belas que o circundam, escolhe o que lhe parece mais belo, e o reproduz com o teque, com o pincel ou com a pena, dando-nos uma estátua, ou um quadro, ou uma descrição em prosa ou em verso.
  Em toda a obra de arte há, pois, o belo da natureza, mais o engenho do artista, que o escolheu e reproduziu.
  O belo da arte é, portanto, a harmonia de duas belezas diversas, uma que nos vem da natureza, e que podemos dizer que lhe constitui quase o esqueleto; outra que nos vem do génio e da mão do artista, e que lhe forma as carnes, a pele o vestuário.
   Estes dois elementos variam assaz nas proporções recíprocas; pelo que ora uma iguala a outra, ora uma é muito pequena e a outra muito grande.
   Quando queremos fazer a critica duma obra de arte com justiça, devemos fazer sempre a análise quantitativa destes dois elementos, pesando-os na balança do bom gosto.
  Quando um pintor copia uma rosa, e não lhe junta de seu nem uma pétala, nem uma cor, nem uma folha, pode-nos dar uma obra  egrégia pela fidelidade  da imitação, pela ilusão perfeita que apresenta aos nossos olhos.
   Assim o escultor que modela uma bela mulher, da qual tem diante de si o corpo nu. Nestes dois casos, e em outros semelhantes, o artista põe muito pouco da sua lavra, e a natureza domina quási exclusivamente o campo estético.
   Outra vezes, pelo contrário, é um pintor que nos pinta o Calvário com o Cristo agonizante e um voo de anjos contristados, que fazendo das asas uma viseira ao rosto, fogem pelo ar, carregado de escura tristeza; ou é um escultor, que nos representa Lúcifer, que tenta um santo à beira dum abismo, onde quere precipitá-lo.
   Nestes dois casos a natureza entra por pequena parte, e o génio criador do artista campeia e domina o campo estético. Pintor e escultor não viram nunca nem o Cristo, nem o santo, nem os anjos, nem o abismo; mas para todas estas coisas tiraram, todavia, elementos da natureza, fundindo-os juntos no cadinho do génio.
   Quer, porém, o artista copie ou crie, quer se faça um modesto imitador, ou pretenda dominar e conquistar a natureza, põe sempre na sua obra a própria individualidade, o próprio estilo, palavra maravilhosa, que, sem querer, assemelha o escritor aos outros artistas do teque e do pincel, e que significa pròpriamente o instrumento estético, com o qual cada um de nós entende, interpreta e reproduz as belezas naturais.
   Este estilo, que Hirt  ( 1 )  chama  carácter, é tão diverso dum pintor para outro, dum para outro escultor, que permite a um crítico inteligente descobrir o autor, ainda quando este não tenha assinado as suas obras; e o  ilustre João Morelli  ( 2 )  nos seus maravilhosos trabalhos de crítica, tem mostrado até onde pode chegar esta potente faculdade de diagnose.

 1 - HIRT ; Uber, das Kunstschone, Horm, 1797.
                    É um livro antigo e pouco conhecido, mas profundo, e em que o autor expõe mui judiciosos conceitos sobre o belo na arte, e, especialmente, sobre o caracter do belo na arte.

2 - Insígne crítico de arte, italiano, ( 1816 - 1891 ), autor do célebre livro  Della pittura italiana, que adquiriu fama universal.