terça-feira, 8 de julho de 2014

Novo fóssil. ( Descoberto há 31 anos )

Maior ave de sempre identificada – e parece que era um ás do voo planado

A envergadura das asas desta gigantesca ave pré-histórica, hoje extinta, é o dobro da do albatroz real, uma das maiores aves actuais.

Reconstituição artística da maior ave (voadora) de sempre Cortesia de Liz Bradford





Um investigador nos EUA identificou os restos fósseis de uma ave gigante, hoje extinta, que terá tido 6,4 metros de envergadura (a distância da extremidade de uma asa à extremidade da outra). Ou seja, trata-se, conclui o cientista, da ave com a maior envergadura alguma vez observada. Os seus resultados foram publicados esta segunda-feira na revista Proceedings of the National Academy of Sciences.
O novo fóssil foi descoberto em 1983 aquando de escavações realizadas para construir um novo terminal do aeroporto internacional de Charleston, na Carolina do Sul (EUA) – e pertence às colecções do Museu de Charleston, explica em comunicado o Museu Bruce de Greenwich (Connecticut, EUA). Foi Daniel Ksepka, da Universidade da Carolina do Norte e o mais recente conservador de ciência do Museu Bruce, que realizou a análise agora publicada.
A nova espécie de ave foi baptizada Pelagornis sandersi em homenagem a Albert Sanders, conservador do Museu de Charleston na altura da descoberta do fóssil por James Malcolm, um voluntário desta instituição.
“Os pelagornitídeos pareciam criaturas saídas da literatura fantástica – não existe nada de semelhante hoje em dia”, explica Ksepka. Viveram em todos os cantos do mundo durante dezenas milhões de anos, tendo desaparecido, por razões ainda pouco claras, há cerca de três milhões de anos.
Estas aves apresentavam, escreve Ksepka, “estranhas” protuberâncias ósseas parecidas com dentes ao longo do bico. E tinham ainda uma mandíbula articulada e ossos especializados nas asas, explica pelo seu lado a PNAS. Quanto ao esqueleto fóssil, encontrava-se particularmente bem conservado – uma raridade, lê-se ainda no comunicado do museu, uma vez que estas aves tinham ossos “tão finos como o papel”.
A partir da análise do crânio, das asas e das patas do achado fóssil, Ksepka obteve estimativas das dimensões e do peso prováveis da ave extinta: 6,4 metros de envergadura e 22 a 40 quilos, lê-se no artigo. Ksepka também calculou o provável comprimento das penas das asas do P. sandersi com base na relação entre o comprimento dos ossos (das asas) e das penas nas aves de hoje.
A seguir, o cientista modelizou por computador os possíveis estilos de voo do P. sandersi, incluindo o voo planado e o voo com bater de asas. E chegou à conclusão de que esta gigantesca ave pré-histórica terá sido um exímio planador. “É provável que o Pelagornis sandersi fosse capaz de percorrer distâncias extremas por cima das águas do oceano à procura de presas”, afirma Ksepka.
A forma de voar do P. sandersi terá sido semelhante à dos albatrozes, que, uma vez no ar após uma corrida de descolagem, conseguem cobrir centenas de quilómetros sem nunca bater as asas, quer aproveitando a energia dos ventos quer as correntes de ar por cima das ondas.
Este resultado contradiz o que se pensava até agora, a saber que, pelo menos em teoria, uma ave do tamanho do P. sandersi seria incapaz de voar. Ora, o P. sandersi “era viável do ponto de vista aerodinâmico”, escreve Ksepka, porque tinha o dobro da envergadura mas “apenas duas a quatro vezes a massa” dos albatrozes, o que o tornava “geometricamente muito diferente dos maiores albatrozes”.
Ksepka especula que o P. sandersi poderá mesmo ter sido capaz de descolar na vertical – e também de voar batendo as asas durante curtos períodos para sobreviver às flutuações dos ventos, porque, “de outra forma, poderia ter sofrido quedas mortais”.
“A nossa compreensão da ecologia dos pelagornitídeos está apenas no início”, termina Ksepka. “Os dados aqui reportados sugerem que eram planadores notavelmente eficientes, o que, em conjunto com a sua distribuição global pelos sete continentes e o longo período durante o qual existiram, faz com que a causa de sua extinção final seja ainda mais misteriosa.” *

* Texto. Jornal PÚBLICO