50 mil pessoas e uma fila de 32 km de Harley-Davidson vão agitar Cascais
É a nova concentração europeia da marca, onde estão previstas várias
atividades e um desfile de motos ao longo de 32 quilómetros.
O evento vai decorrer entre 13 e 16 de junho, em Cascais
Depois de Praga, na República Checa, os motards e entusiastas da
Harley-Davidson vão tomar Cascais para mais uma concentração
europeia. O evento arranca já na próxima quinta-feira, 13 de junho e vai
decorrer até domingo, 16 de junho. Ao longo dos três dias do evento
estão previstos várias atividades e muita música.
O ponto de encontro está marcado na Praia da Ribeira e toda a região circundante, onde são esperadas cerca de 50 mil pessoas.
A polícia internacional lançou um apelo para ter ajuda na detecção de sete dos criminosos ambientais mais procurados no mundo.
O alerta público da Interpol surge no Dia Mundial do Ambiente e diz
respeito a pessoas procuradas internacionalmente por crimes como o abate
ilegal de madeira, tráfico de marfim e abandono de resíduos tóxicos sem
tratamento, explica o The Guardian.
Em causa estão por exemplo dois chineses ligados ao tráfico ilegal de
espécies protegidas – Guo Qin Huang, 42 anos, e Muk Nam Wong, 62 – e
dois irmãos albaneses acusados do corte ilegal de árvores numa floresta
na Grécia, Ergest Memo, 34, e Taulant Memo, 33.
Já Nicholas Mweri Jefwa, de 44 anos, e Samuel Bakari Jefwa, 29, são
procurados no Quénia por negociarem ilegalmente ‘troféus’ resultantes da
caça de vida selvagem e por actividade criminosa organizada.
Por fim, Bhekumusa Mawillis Shiba, 39, é acusado de ofensas à vida selvagem pelas autoridades de Eswatini, antiga Suazilândia.
Caso alguém do público detecte um destes criminosos, não deve
interpelá-los, mas sim contactar a Interpol, avisa a polícia
internacional, numa nota publicada no site.
“As fronteiras não detêm os crimes ambientais, que podem ir do
tráfico de marfim e da sobre-pesca de espécies protegidas ao corte
ilegal de árvores para produção de madeira e ao abandono de resíduos
tóxicos”, sublinha a agência.
A Interpol recorda ainda que as rotas usadas pelos traficantes de
espécies selvagens são muitas vezes as mesmas para outros crimes como o
tráfico de armas, de drogas e de pessoas. “Os crimes ambientais muitas
vezes acontecem a par de outras ilegalidades, como fraudes de
passaportes, corrupção, lavagem de dinheiro e mesmo homicídios”,
acrescenta.
Calcula-se que o crime ambiental gera todos os anos entre 110 a 281
mil milhões de dólares (entre 98 e 250 euros mil milhões de euros) de
receitas ilegais.
De acordo com o secretário-geral da Interpol, Jurgen Stock, “os
crimes ambientais estão a ocorrer numa escala industrial, com grupos
criminosos organizados transnacionais a fazerem milhares de milhões de
lucros enquanto prejudicam a aplicação da lei e ameaçam a segurança
nacional”.
Esta simpática planta dá origem, anualmente, a uns " cachos " de flores cujo perfume é do mais activo, a pontos de toda a casa ficar impregnada do seu aroma único. A da foto esteve vários anos em casa de um familiar e nunca por lá se manifestou.
Em comunicado, o
IPMA explica que a depressão 'Miguel' está centrada a nordeste no
arquipélago dos Açores e em deslocamento para leste-sueste, em direção à
Galiza.
"Associada a esta depressão, está uma superfície frontal fria
de atividade moderada a forte, e que deverá aproximar-se do território
do continente a partir da manhã de quinta-feira", adianta o IPMA.
Por
isso, segundo o IPMA, está previsto para o continente a ocorrência de
precipitação, em especial nas regiões Norte e Centro, e que poderá ser
por vezes forte no Minho durante a tarde.
Está também previsto
vento forte a partir da manhã nas regiões Norte e Centro, sendo de
sul-sudoeste com rajadas até 80 quilómetros por hora e até 95
quilómetros por hora (km/hora) nas terras altas.
Durante a tarde, as rajadas de vento podem atingir valores da ordem de 95/100 km/h no Minho.
O IPMA destaca também que as zonas marítimas de responsabilidade nacional serão afetadas com vento e agitação marítima forte.
Os efeitos da depressão 'Miguel' no continente vão fazer-se sentir a partir da manhã de quinta-feira.
O Parque Natural de Sintra-Cascais é uma zona privilegiada de turismo e lazer, pela amenidade do clima, diversidade e beleza da paisagem.
Abrange 14 583 hectares distribuídos pelos concelhos de Sintra e Cascais, numa região sensível condicionada pela intensa pressão humana.
Surgiu da necessidade de intervenções apropriadas na gestão e salvaguarda do rico património natural, arquitectónico, histórico e tradicional, favorecendo uma arquitectura integrada na paisagem, promovendo o desenvolvimento económico e o bem-estar das populações.
Parque Natural de Sintra-Decreto-Lei nº 8/94, de 11 de Março cria o PN Sintra-Cascais» Resolução de Conselho de Ministros nº 142/97, de 28 de Agosto, cria o Sítio “Sintra-Cascais”» Revisão do Plano de Ordenamento pela Resolução de Conselho de Ministros 1 – A/2004 » Plano de Ordenamento da Orla-Costeira Sintra-Sado, RCM nº 86/2003, de 25 de Junho»
Lista de Sítios do Património Mundial da UNESCO. Paisagem Cultural de Sintra – 19ª sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO – Paris, 6 de Dez de 1995 Patrocínio:Alvará DGT 59/2007
Serra de Sintra. Primavera de 2019 Foto J.P.L.
Vista para a Biscaia e Guincho Foto: J.P.L.
Campos da Figueira do Guincho. Na Primavera de 2019 Foto: J.P.l.
A Peninha lá no alto... Foto: J. P.L.
Vegetação Foto: J.P.L.
Um Jardim dos deuses. Foto: J.P.L.
Moldado pelo tempo
Por todo oPNSC abundam vestígios de afectação da paisagem pela presença humana, desde o Paleolítico. Durante cerca de doze séculos romanos, visigodos, árabes, deixaram marcas profundas no modus vivendi das populações. A influência dos muçulmanos é bem patente na arquitectura, na agricultura e também na toponímia.
A sociedade rural instalou-se nos solos mais férteis e planos, os nobres e burgueses descobrem os encantos deste território e elegem-no como local de veraneio.Localizado na península de Lisboa, o PNSC está integrado na Orla Mesocenozóica Ocidental do Maciço Hespérico,sendo que as rochas mais antigas – sedimentares -, aqui observáveis, se depositaram há 160 milhões de anos.
Os grandes acontecimentos que marcam profundamente a história geológica desta Área Protegida são, assim, relativamente recentes quando comparados com os que marcaram a geologia de muito do território português, porém traduzem-se numa rica geodiversidade e património geológico.
O maciço ígneo de Sintra, lugar de mistério,destaca-se das plataformas sedimentares envolventes, por vezes a mais de 500 metros acima do nível do mar, resultando da intrusão e ascensão do magma nas camadas sedimentares do Cretácico e Jurássico. Alongada no sentido leste-oeste, a serra constitui uma barreira natural contra ventos marítimos.
Os elevados valores de humidade associados à diversidade de composição do solo permitem o desenvolvimento de uma vegetação muito diversificada, de características essencialmente mediterrânicas e ocidental-mediterrânicas.
A serra foi sendo despojada das suas riquezas ao longo de séculos, até lhe restarem apenas matos onde já não era possível a sobrevivência de grande parte da fauna. A floresta de carvalhos ficou reduzida a vestígios nas zonas mais inacessíveis, onde ainda é possível encontrar espécies ameaçadas como o azevinho Ilex aquifolium e outras espécies-relíquia da vegetação anterior às glaciações, como o feto-de--folha-de-hera Asplenium hemionitis.
No século XIX assistiu-se, sob inspiração do Romantismo, à transformação das propriedades agrícolas em locais de recreio e lazer com sumptuosos palacetes rodeados por jardins tapadas e bosques, com flora vinda de todo o mundo.
Os parques da Pena e Monserrate são dos melhores conjuntos europeus de flora arbórea das diversas partes do mundo. A paisagem criada, onde se insere um diversificado conjunto arquitec-tónico, foi incluída pela UNESCO na Lista de Sítios do Património Mundial, com a categoria de Paisagem Cultural.
Fotografias. José Pinto Lopes Texto. ICNF Sublinhado em negrito.J.P.L.
Já
poucos são os que entram em museus, teatros ou livrarias. Não conseguem
competir com o cinema, a Netflix e os festivais de música. O Mundo do
Livro é um desses locais ignorados, apesar de ser lá que se pode
conhecer um “resistente”. O dono, João Rodrigues Pires, tem 100 anos e
continua a dirigir a sua própria livraria, o que lhe confere o palmarés
de livreiro mais antigo de Portugal.
O Mundo Do Livro já foi só do livro, mas atualmente é de muitas outras
coisas. Gravuras antigas, mapas, reproduções, molduras, pinturas e
postais preenchem este ex-líbris lisboeta, onde o que se mantém imutável
é o fundador: há quase 80 anos que João Pires passa os seus dias à
frente desta loja que já viu Lisboa mudar e que recentemente conseguiu
duas distinções: A sua livraria foi considerada “Loja com História” e
foi condecorado pelo Presidente da República, com o grau de Comendador
da Ordem do Mérito.
Porque as noticias não escolhem hora e o seu tempo é precioso.Com 100 anos recentemente celebrados, o Sr. Pires continua a ir e vir
todos os dias de táxi até à sua loja no centro da capital, onde sobe e
desce pelos três andares do edifício pombalino sem quase se notar o peso
da idade. É natural de Santo Amaro de Oeiras, viveu 10 anos da sua
infância em Cacheu, na Guiné, mas passou toda a vida no Chiado, primeiro
em várias livrarias reconhecidas, como a Bertrand e a Sá da Costa, e
depois assentando arraiais por conta própria. A livraria O Mundo do
Livro abriu portas em 1941, na Rua Nova da Trindade, no vão de escadas
do edifício onde ainda hoje se encontra a Academia dos Amadores de
Música, e em 1946 mudou-se para a morada que mantém, no Largo da
Trindade. Começou aos vinte e poucos anos com 200 livros e 300 escudos,
num Chiado intelectual, onde circulavam clientes com poder de compra num
mundo pré-Internet. Hoje passam-se dias sem que venda um único livro -
as gravuras chegaram para apoiar o negócio em declínio dos livros
antigos -, mas o Sr. Pires diz estar orgulhoso: “Fiz coisas que nenhum
livreiro fez, edições de livros e cerca de 400 gravuras que nunca tinham sido reproduzidas.” O bibliófilo está sempre pronto a ajudar a encontrar um livro ou uma
gravura e também a trocar dois dedos de conversa e partilhar uma ou
outra história. Naturalmente, ao longo da vida que passou à frente da
livraria que fundou após a Guerra Civil de Espanha, os episódios
caricatos foram-se acumulando. Desde um interrogatório na Polícia
Judiciária - ainda no tempo de Salazar - que durou 12 horas, até às
amizades com Aquilino Ribeiro e a família Almeida Garrett, contamos aqui
algumas das memórias que preenchem a vida do alfarrabista mais antigo
de Portugal.
A
turma do Sr. Pires (o primeiro a contar da esquerda) quando regressou a
Portugal da Guiné, onde nunca teve educação formal. A escola ficava na
Calçada de Santana e a sua professora era açoreana (a segunda a contar
da esquerda na fila da frente) - "Lá não consegui fazer nem a
instrução primária, porque se havia escolas não havia professores e se
haviam professores não havia escola.”créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
Cartão de identidade de João Rodrigues Pires emitido pela Academia Portuguesa de Ex-Libris.créditos: Paulo Rascão | MadreMediaA entrada
Quando se entra
n’O Mundo Do Livro podemos sentir alguma confusão - apesar do nome da
loja, esta é maioritariamente ocupada por gravuras.
As pistas que
justificam o nome surgem depois da impressão inicial: no piso térreo, a
vitrina da caixa registadora guarda relíquias dedicadas ao dono da loja,
a montra exterior dá destaque rotativo a obras literárias raras e no
canto esquerdo deste piso há um pequeno mostruário quase em jeito de
museu, expondo as edições fac-similadas de obras raras como “As Sátiras”
de Sá Miranda ou a primeira edição das “Comédias Portuguesas” de Simão
Machado que o livreiro produziu.
A escritora Carolina Michaelis de
Vasconcelos considerava que “As Sátiras” estavam perdidas, lembra o
alfarrabista. “Um dia, um exemplar entra-me aqui pela porta a dentro”.
Na altura não conhecia a obra, mas seguiu o instinto e comprou-a por
quinze contos.
A jogada de sorte acabou por compensar pois o livreiro
veio a ganhar muito mais, produzindo cerca de 400 exemplares desta obra
considerada desaparecida. “Depois ofereci cinquenta ao Instituto Alto da
Cultura para distribuir pelas bibliotecas do país.” Quanto ao livro do
poeta Simão Machado, o único exemplar conhecido estava na Biblioteca do
Vaticano, até aparecer um segundo n’O Mundo do Livro.
O Sr. Pires estava
a fazer uma edição
para um professor francês, com base no exemplar do Vaticano que estava
em muito mau estado, quando um livreiro inglês seu conhecido, durante
uma passagem por Lisboa, lhe mencionou que teria um volume em Oxford.
Regressou a Inglaterra e, volvidos dois dias, telefona a João Pires com
boas notícias: era precisamente o exemplar que queriam e estava em
melhores condições do que o do Vaticano.
“Eu nunca encontrei referência a
este livro!”, lembra o livreiro, que na altura pediu então para lhe ser
enviada a peça, sem perguntar pelo preço: “Chega cá o livro e são 70
contos… Agora a quem é que vou vender isto?”, lembra o Sr. Pires. Em
conversa com um colega de profissão, relata o acontecido e qual o seu
plano: “Veja lá, comprei isto em Inglaterra por 70 contos e já tinha
feito a edição. Vou vender à Biblioteca Nacional por 90 contos.” Antes
disso, decidiu sondar o colega: “‘Queres-mo comprar? Poupas-me o
trabalho de lá ir...’ Vendi-lhe a ele por 90 contos e ele foi lá
vendê-lo por 150”, conta.
Na tacanha entrada d’O Mundo do Livro, para além
das gravuras e das acarinhadas edições que o alfarrabista reproduziu, os
olhos do cliente acabado de entrar inevitavelmente poisam em dois
diplomas pendurados na parede, reconhecimentos que celebram uma vida
preenchida.
Um diploma relativamente recente confere ao Mundo Do Livro o
“Prémio Europa de la empresa ejemplar”. Acima deste, a moldura mais
chamativa protege um diploma outorgado pela Presidência da República
italiana. Assinado pelo presidente Giuseppe Saragat, em 1965, confere a
João Rodrigues Pires o Grau de Cavaleiro da Ordem de Mérito.
Tamanha
condecoração deveu-se a um evento único em Portugal, uma celebração dos
700 anos do nascimento do escritor italiano Dante Alighieri organizado
pelo nosso livreiro. “Quando foi o centenário de Dante disse para o Pina
Martins, que era professor da faculdade, ‘e se nós fizermos aqui uma
comemoração do centenário de Dante?’”.
Continua João Pires: “Convidámos
professores e uma quantidade de gente, enchi aqui a casa e fizemos essa
comemoração. Fiz uma edição do Dante, com introdução de Pina Martins e
até foi ele próprio que arranjou o original, que é raríssimo.”
Diploma da Presidência da República italiana que confere o título de “Cavalieri” a João Pires.créditos: Paulo Rascão | MadreMediaA edição d’O Mundo do Livro comemorativa do centenário de Dante.créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
Desde que João Pires iniciou o seu negócio por conta
própria, no pequeno vão-de-escada na Rua Nova da Trindade, que a loja
se chama O Mundo do Livro, mas nem sempre o exterior da livraria
correspondeu à sua alma, tal como observou em tempos um cliente assíduo
da família Almeida Garrett, José Maria de Almeida Garrett: “Eu não o
conhecia. Sabia apenas que era comprador de livros e comecei-lhe a
mandar os catálogos”, explica o livreiro. “Um dia aparece-me lá um
velhote com um cão com pêlo de arame a dizer, 'esta está boa, aqui num
buraco o mundo do livro’”, ao que o Sr. Pires riposta, "mas diga-me com
quem tenho o prazer de estar a falar”. “Está a falar com o seu amigo e
cliente José Maria de Almeida Garrett!”, veio de volta a resposta.
O andar do meio
Se
hoje João Rodrigues Pires é oficialmente o mais antigo livreiro de
Portugal, em 1951 era o mais novo, ou pelo menos assim o apelidava o
amigo e escritor Aquilino Ribeiro . Conheceram-se em Santo Amaro de
Oeiras, onde o autor vivia com a primeira mulher, alemã, e o filho
Aníbal, que mais tarde se tornou juiz e foi um dos amigos de infância do
Sr. Pires (“jogávamos ao berlinde os dois”), conta-nos este enquanto
sobe as escadas da sua livraria.
Pertencem a este autor duas das maiores preciosidades d’O Mundo do
Livro e as histórias que o incluem são contadas por João Pires com
carinho: “O Aquilino era um amigo, era um amigo…”, suspira enquanto
folheia o manuscrito inédito do livro infantil “O livro do menino Deus”
rescrito propositadamente para a livraria em 1956, para uma nova edição
do conto chamado “Sonho de Uma Noite de Natal” e que conta com mais
páginas e algumas emendas. Lê-se na carta que acompanha o livro
rabiscado: “Meu caro Pires, aí lhe remeto o conto refundido e ampliado.
Agora só desejo que faça uma plaqueta bonita como fez para o Gil e para o
Garrett, mas leia primeiro. PS: Desculpe ter-lhe inutilizado o livro
‘Menino de Deus’, no entanto aí lho mando vandalizado.”
Uns anos antes, em 1951, foi o
amigo Aquilino Ribeiro quem escreveu o prefácio do primeiro Catálogo de
Livros Selecionados do ainda jovem Mundo do Livro, essencial numa altura
em que não existia Internet para difundir a oferta das livrarias: “João
Pires, porventura o livreiro antiquário mais novo de Portugal e por
certo dos mais audazes e entendidos, apresenta à venda um
escrínio precioso de bons autores, célebres autores, em edições raras,
edições de tiragem limitada, nos melhores papéis, Watman, Japão, linho
da Abelheira, exemplares únicos por vezes, encadernados sumptuosa e
principescamente. ” O autor continua: “Debrucem-se um momento,
folheando-o, para o catálogo que ora lhes oferece ‘O Mundo do Livro’,
tão discreto como arrojado nas suas empresas de antiquária”. E, depois
de elogiar o trabalho de encadernação do livreiro (“magnificamente
encadernadas e o seu estado é impecável.
Nem um traço, a menor nódoa, a
pinta duma mosca.”), enumera a variedade de autores em oferta na
livraria, como Carolina Michaelis de Vasconcelos, Garrett, Camões,
Teófilo Braga, Beckford ou Bradford. Quase em jeito de presságio,
Aquilino Ribeiro termina da seguinte forma: “Nada mais que do ementário
desta admirável coleção se pode inferir com segurança que o livro é
artigo de primeiro interesse, que o livro corre pelas estradas
mesteirais do mundo em maior quantidade do que nunca e com acentuada
procura.
Se houvesse crise neste ramo de atividade, é porque tinha
batido uma hora sombria para a civilização.” E foi precisamente a este
declínio que João Pires assistiu.
“Tenho saudades desses tempos…. As
pessoas já não compram, o cérebro deixa de funcionar. Já fecharam pelo
menos vinte e tal livrarias em Lisboa e as tipografias também têm
fechado; a Cromotipo, que trabalhava para mim, por falta de trabalho
também fechou há dois anos.
” Das janelas do segundo andar veem-se
turistas a tirar fotografias à baixa lisboeta e a passearem-se com sacos
de compras, mas poucos são os que entram nesta livraria que já faz
parte da história da capital.
A primeira edição do Catálogo de Livros Seleccionados dO Mundo do Livro.créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
O prefácio de Aquilino Ribeiro na primeira edição do Catálogo de Livros Seleccionados dO Mundo do Livro, impresso em 1951.créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
O último andar
As histórias contadas pelo Sr. Pires vão-se acumulando pelos andares da
sua loja, mas é quando se chega ao terceiro piso que o mundo do livro
realmente se revela. Ao cimo das escadas os nossos olhos inevitavelmente
recaem sobre o enorme mural pintado por António Domingues em 1962. O
Sr. Pires lembra que a maquete inicial da obra não tinha livros
retratados - foram posteriormente acrescentados para evitar que a PIDE
censurasse a pintura e ilustram o poema de Castro Alves: “Oh! Bendito o
que semeia/ Livros... livros à mão cheia…/ E manda o povo pensar!/ O
livro cahindo n’alma/ É germen - que faz a palma. /É chuva - que faz o mar.”
Este terceiro andar iluminado pelo sol lisboeta tem uma aparelhagem
sempre sintonizada numa das estações de rádio da moda. Hip-hop americano
ou funk brasileiro ecoam numa divisão forrada a gravuras e livros de
outro século, um século em que a música que passava na rádio era
certamente outra, e é neste piso solarengo doutro tempo que João Pires
tem também a sua coleção privada, onde se pode ler num autocolante
colado nas estantes cheias de memórias, “not for sale” [não está para
venda]. Dossiers repletos de recortes de jornais de época dão conta de
vendas avultadas de livros raros, várias fotografias ilustram quase 80
anos de profissão e correspondência com grandes livreiros e comerciantes
relatam a pujança de que outrora os alfarrabistas usufruíam. H. P.
Kraus, que o Sr. Pires descreve como “um dos maiores livreiros de Nova
Iorque”, despede-se numa carta de 1952 de maneira pouco modesta (“The
name of my firm is so well known that I do not think it is necessary to
give you references”, isto é, “O nome da minha empresa é tão conhecido
que penso não ser necessário apresentar-lhe referências”), mas não sem
antes elogiar O Mundo do Livro: “I would like to congratulate you at
this occasion on your large catalogue. It is the first nice catalogue I
have received from Portugal, and I do hope, we can establish agreeable
business relations.” [“Gostaria de o felicitar pelo seu vasto catálogo. É
o primeiro bom catálogo que recebi de Portugal e espero que consigamos
estabelecer agradáveis relações de negócios.”]
O cantinho das recordações no terceiro piso d’O Mundo do Livro, que ainda hoje assim se mantém.créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
As histórias do livreiro
situam-se quase todas no século passado, durante o tempo áureo do livro,
quando figuras influentes da cultura portuguesa se passeavam pela baixa
lisboeta: “Aqueles clientes fantásticos que havia, os Almeida Garretts,
os Condes da Trindade, isso já não há. Eu mandava catálogos para todo o
mundo e vinham professores de todo o mundo”. No Chiado de antigamente
“havia poetas que andavam a passear, artistas de teatro, na Bertrand
reunia-se muita gente, na Sá da Costa a mesma coisa e aqui também.” As
tertúlias e os encontros de professores eram ocorrências regulares e o
Sr. Pires lembra-se de um episódio em particular: “Uns professores
estrangeiros estavam aqui e às sete horas vinha eu dizer
que a porta estava fechada e que tínhamos de ir embora, mas a conversa
era tão interessante que eu acabei também por entrar. Depois dessa
conversa toda olhei para o relógio. ‘Epá, uma hora da noite? Tenho o
relógio avariado’. Eles foram ver e era uma hora da noite, nem jantámos
nem nada. Pus tudo na rua!”
Os clientes desse tempo eram figuras como Charles Boxer, historiador e
professor inglês conhecido pelos seus estudos da história colonial e
marítima portuguesa ("O professor Boxer saía do avião e vinha para aqui. Começava ali e tuca, tuca, tuca. Quando via um livro, metia em cima da
mesa e depois dizia, ‘Ó Pires, manda uma lista para o King’s College
para eles comprarem isto’”, lembra o livreiro); o Comandante Ernesto
Vilhena, da Companhia de Diamantes de Angola (“O Comandante Vilhena era o
meu melhor cliente. Vinha aqui todos os sábados, sentava-se e dormia
ali uma soneca depois do almoço. Depois quando acordava dizia, "o que é
que há aí para mim?”); e outros tantos, muitos deles anónimos para João
Pires, mas que vinham de propósito à sua “casa” em busca do bom gosto do
proprietário. “Um dia aparece aqui um inglês já velhote, um panamá na
cabeça, umas alpercatas de corda e a camisa passajada - usavam-se uns
colarinhos de plástico que às vezes rompiam as camisas”, começa assim
mais uma deliciosa história do livreiro. O estrangeiro vinha à procura
de iluminuras; sentou-se e foi escolhendo o que queria das pilhas de
sugestões apresentadas pelo Sr. Pires. “Ele põe de parte e põe de parte e
compra-me aquilo tudo, 900 e tal contos.” Em espanhol, o cliente
pergunta se poderia passar um cheque sob a Suíça e se depois a compra
pode ser entregue no Hotel Estoril Sol. “Eu pus-me assim a pensar: ‘Se o
homem manda receber primeiro o cheque e depois manda entregar, é porque
o cheque tem cobertura’”, explica o Sr. Pires. “Eu volto para dentro e
digo, ‘o senhor comprou, pagou, agora pode levar’”. O inglês responde,
surpreendido, que o livreiro não o conhecia, ao que este riposta: “Pois
é, mas é um cliente, comprou, pagou, leve.” O Sr. Pires tanto insistiu
que o cliente lá levou os seus livros. Compra finalizada, interação
terminada, João Pires corre até ao banco para verificar se o cheque
tinha efetivamente cobertura. “Epá, vendeste a livraria toda?”,
questionou na altura o administrador do banco. “Olha, podes vender
Lisboa inteira, porque é um
dos homens mais ricos de Inglaterra, John Galvin”, veio mais tarde a
explicação. O inglês tornou-se então num cliente querido da casa e
“depois ofereceu-me vários livros”, relata João Pires. “Era editor,
tinha uma companhia de navios, companhia de aviação, tinha tipografias,
tinha sei lá o quê - era considerado o homem mais rico de Inglaterra e
parecia um pedinte!”
Dedicatória
do Comandante Ernesto de Vilhena, da Companhia de Diamantes de Angola,
um dos melhores clientes do livreiro: “a João Pires, pelo esforço
desenvolvido por dignificar a livraria portuguesa.”créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
Dedicatória de John Galvin em 1966.créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
Uma das histórias mais caricatas
da longa vida do Sr. Pires, também ela retratada no cantinho das
memórias preservadas em micas, acaba com um interrogatório na PJ, ainda
antes do 25 de Abril, graças a um livro vendido por 400 contos a uma
senhora que forneceu uma morada falsa. Tratava-se do "Tratado de
Confissom”, o primeiro livro impresso em Portugal, encontrado em Chaves e
datado de 1489.
Falamos do mais antigo incunábulo português. “Fui eu que o vendi ao
banqueiro Miguel Quina”, conta, divertido, João Pires. “Um livro
impresso em Chaves onde nunca se sonhou que houvesse uma tipografia!” Os
incunábulos, obras impressas até ao ano de 1500, eram apenas alguns dos
livros raros que passavam pelas mãos do Sr. Pires e que os clientes da
altura queriam e podiam comprar. O banqueiro Miguel Quina, administrador
do Banco Borges & Irmão, comprou o “Tratado” por 400 contos, mas,
com receio da imagem que tal transação avultada pudesse transmitir,
pediu sigilo: “Ó Pires, eu não quero que se saiba que dei 400 contos por
um livro. Eu mando cá alguém buscar o livro".
No dia da transação apareceu uma empregada do Banco Borges & Irmão,
que “agarrou em 400 notas de contos e levou o livro”. João Pires
passou-lhe um recibo, com o nome e morada que ela lhe facultou. “Resultado: apareceram algumas notícias nos jornais e às duas por três
vem cá o diretor da Biblioteca Nacional, o Estevens, mais a Carlota, a
bibliotecária”, conta o Sr. Pires. “Queriam ver um livro que eu tinha
comprado, um incunábulo.” A resposta da parte do livreiro não se fez
demorar: “Eu fui apenas intermediário. A senhora viu as coisas nos
jornais, telefonou-me, veio cá, comprou, pagou e foi embora.” João Pires
deu-lhes o nome da senhora, eles foram lá e, como vieram a descobrir, “nem a senhora nem a morada existiam.”
Mais tarde nesse dia, quando o alfarrabista chegou a casa, tinha um
carro da Polícia Judiciária à porta. “Disseram-me que a senhora não
existia e eu respondi que não acreditava em almas do outro mundo”.
Estava iniciada a investigação - “Fui para a Polícia Judiciária no carro
deles, fui entrevistado por uma quantidade de coisas e depois
mandaram-me embora .” Dois dias depois, o cenário repetiu-se: “Eu fui
interrogado nessa altura por todas as brigadas, uns simpáticos, outros
muito malcriados, e eu era sempre o mesmo discurso”, conta o Sr. Pires.
“Esteve lá o diretor da Judiciária, que quando me interrogou abanou-me e
eu disse-lhe 'não me abane assim, porque quem compra um livro por 400
contos é capaz de o demitir a si e a mim meter-me na cadeia…veja lá o
que você faz'”.
João
Pires lembra-se que começou a ser interrogado às 3 da tarde e apenas foi
libertado às 3 da madrugada, “sem jantar nem nada”. Enquanto isto, uma
irmã do livreiro foi a casa do Miguel Quina e disse para este ir à
Polícia Judiciária. O banqueiro levantou-se às 3 da manhã e lá foi
explicar que tinha sido ele a comprar o livro, através de uma das suas
empregadas. “Depois já me tratavam por Vossa Excelência na PJ… então há
bocado eu era inimigo público número 1 e agora já sou excelência?”,
remata João Pires. "Aquilo foi um caso sério. Os jornais diziam:
‘senhora misteriosa adquiriu por 400 contos o primeiro livro impresso em
Portugal. A compradora nem regateou e deu nome e morada falsa’”. E
depois de tanta comoção, onde foi então parar o mais antigo livro
impresso em Portugal? “Uns anos mais tarde o Miguel Quina parece que o
vendeu à Biblioteca Nacional.”
créditos: Paulo Rascão | MadreMedia
O futuro d’O Mundo do Livro
Livreiro
que anda atrás de tantos livros acaba por acumular histórias, fruto de
uma vida passada numa loja de portas abertas para o mundo. Alia-se a
isto uma curiosidade inata e um “faro” adquirido pela experiência e o
resultado são bons negócios e clientes fiéis. “Um dia entra-me aqui uma
senhora, ainda lá no vão de escada, para me vender um livro”, começa por
relembrar João Pires. “Era uma coisa enorme, eu abro aquilo e até tinha
uma fechadura; eu nunca tinha visto tal coisa numa encadernação.” Tratava-se de uma reprodução da Magna Carta toda feita à mão
em iluminura, “a lei que rege ainda hoje os ingleses”. O Sr. Pires fez
alguma pesquisa sobre aquele achado e descobriu que um artista havia
feito 4 exemplares: "um que está no Louvre, outro que está no Hermitage
na Rússia, outro está no British Museum e aquele era o mais bonito de
todos.”
Com uma
relíquia daquelas a entrar-lhe na loja, faltava agora encontrar um
cliente disposto a pagar os 70 contos que a senhora pedia e cuja quantia
o nosso livreiro não tinha. Mas João Pires sabia perfeitamente a quem
ligar e a chamada para Castelo Branco não se fez esperar. Do outro lado
da linha, o cliente habitual José Maria de Almeida Garrett respondeu: "Ó
Pires, mas eu vou agora para a Granja passar uns dias para o Norte.”
João Rodrigues Pires ofereceu-se para lá ir ter e no dia seguinte estava
a mostrar o achado ao potencial comprador. Muito prontamente, José
Maria de Almeida Garrett conclui o negócio - passou um cheque de 100
contos ao alfarrabista e disse: “Ó Pires, 30 contos é para o comboio”.
Eram, como diz o Sr. Pires, outros tempos: “Eram clientes assim, já não
há disso, acabou.”
Escassos
são os clientes de antigamente, mas também são cada vez mais raros
livreiros como o Sr. Pires. Não se sabe o que poderá acontecer ao Mundo
do Livro, porque embora haja pessoas imortais, o Sr. Pires, não será
eterno. Por enquanto, continua à frente da livraria que fundou, sempre
de portas abertas para todos aqueles que queiram seguir a sua
curiosidade.
O
tempo vai mudar e muito durante a próxima semana, com uma descida
abrupta da temperatura associada à passagem de uma frente fria entre dia
4 e dia 5.
Após a passagem da frente, perturbações de
origem polar vão-se colocar a norte da Península, mantendo um fluxo de
ar frio e ligeiramente instável vindo de norte e noroeste.
Esperamos
uma descida de 10-15ºC nas temperaturas, em muitas regiões as máximas
vão descer para valores abaixo dos 20ºC, o que é incomum nesta altura do
ano.
No que respeita ao frio mais anormal,este deverá manter-se pelo menos até dia 9.
Na terras altas do norte e centro as temperaturas mínimas vão aproximar-se dos 0ºC.
Esperamos
que grande parte do território venha a observar temperaturas mais
normais de Março do que de Junho… com valores máximos entre 16-22ºC e
mínimos entre 7 e 12ºC.
Alem do frio, esperamos alguma precipitação dispersa, mais provável no norte e centro.
Neste momento as tendências semanais e sazonais apontam para um Junho instável, sem grandes episódios de calor persistente.
No
dia 23 de maio, a RTP1 emitiu uma reportagem no programa “Linha da
Frente”, intitulada “Perigos no Prato” abordando vários contaminantes,
aditivos e corantes existentes em diversos alimentos, consumidos pelos
portugueses.
O “Linha da Frente” analisou dezenas de rótulos e avaliou os
contaminantes presentes em vários alimentos (carnes, peixes, bivalves
entre outros).
Na reportagem "Perigos no Prato", o Sistema Nacional de Monitorização de
Moluscos Bivalves (SNMB) do IPMA IP., foi abordado como plano nacional
de monitorização de moluscos bivalves.
A equipa de reportagem da RTP1
acompanhou os técnicos do SNMB do IPMA IP., no trabalho de campo
(recolha de amostras) e no trabalho nos vários laboratórios do SNMB
(Laboratório de Microbiologia, Biotoxinas Marinhas e Fitoplâncton),
fazendo referência às diversas análises efetuadas no âmbito da
monitorização, que permitem à população, consumir moluscos bivalves em
segurança.
O Investigador António Marques da Divisão de Aquacultura,
Valorização e Bioprospecção do IPMA, foi entrevistado, para falar sobre
contaminantes emergentes em pescado, onde aflorou a problemática da
presença de retardadores de chama em algum pescado selvagem consumido em
diferentes países Europeus, e cujos teores podem representar um risco
acrescido para a saúde dos consumidores.
A reportagem reflete uma visão catastrofista da alimentação. No entanto,
para o pescado, esta visão é desadequada e não espelha a elevada
qualidade nutricional da generalidade do pescado existente no mercado.
Além disso, não reflete todos os esforços que têm sido desenvolvidos
pela indústria em colaboração com o Sistema Científico Nacional na
implementação de soluções inovadoras e sustentáveis para proporcionar
aos consumidores pescado mais seguro e com qualidade nutricional
acrescida. O programa não reflete de todo a realidade da vasta maioria
do pescado existente no mercado e coloca os produtos de aquacultura num
patamar desajustado à qualidade que realmente apresentam.
Foi a Ordem dos Advogados surpreendida com a notícia de que esta
terça-feira de manhã em Alfena, Valongo, A Autoridade Tributária (AT),
em colaboração com a GNR, interceptava condutores, no âmbito de uma
acção que visava a cobrança de dívidas fiscais.
Não pode a Ordem dos Advogados deixar passar em claro esta
originalidade, entretanto – e muito bem – suspensa pelo Exmo. Senhor
Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais (SEAF).
Não sendo claros os contornos da operação, a mesma, de acordo com o
relatado pela comunicação social (citando-se fonte da AT no local),
visava “intercetar condutores com dívidas às Finanças, convidá-los a pagar e dar-lhes essa oportunidade de pagarem”.
Não o fazendo, “estamos em condições de penhorar as viaturas”. Para tanto, e de acordo com a mesma fonte: “O
controlo dos devedores estava a ser feito através de um sistema
informático, que estava montado em mesas em tendas colocadas na rotunda
da Autoestrada 42 (A42), saída de Alfena, distrito do Porto. O sistema
informático cruza dados através das matrículas das viaturas e compara-os
com a existência de dívidas ao fisco.”
Esta iniciativa merece o mais firme repúdio por parte da Ordem dos Advogados.
Desde logo, e do ponto de vista do Direito, é evidente que não é
permitido promover a penhora indiscriminada de bens de pessoas ou
empresas que sejam devedoras de impostos. Com efeito, não é líquido nem
certo que uma dívida fiscal seja efectiva apenas porque a AT entendeu
lançá-la no sistema – a dívida pode estar ferida de erro ou ilegalidade,
e o contribuinte tem de ver os seus direitos de defesa assegurados.
Acresce que a penhora de bens apenas pode ser realizada, de acordo com o
Código do Procedimento e Processo Tributário, após regular citação do
devedor executado e vencido o prazo de 30 dias (contados da citação)
para o seu pagamento ou oposição.
Mais importante: repugna à Ordem dos Advogados a ideia de tratar um
cidadão, eventualmente devedor de impostos, como se de um vulgar
criminoso se tratasse, recorrendo indiscriminadamente às autoridades de
polícia. Uma dívida fiscal é apenas isso – uma dívida, assunto para ser
tratado pelos Serviços de Finanças e nos Tribunais- A sua cobrança não
pode ser realizada sob a ameaça de, pela força, despojar sumariamente os
cidadãos dos seus bens.
No caso, é particularmente repugnante o método seleccionado, pois a
alternativa que restaria ao cidadão, não pagando ou não podendo pagar
uma eventual dívida fiscal, seria ser submetido ao vexame de ficar
privado do seu meio de transporte, em plena via pública!
Pagar impostos é um dever que a todos compete, e que deve ser
cumprido voluntariamente. Mas seja por erro ou por ilegalidade, uma
dívida fiscal pode não existir ou não ser válida. Num Estado de Direito
Democrático, não deveria ser sequer possível considerar a utilização das
forças da autoridade para coagir os cidadãos ao pagamento de algo que,
eventualmente, nem sequer devem.
E que, ainda que devido, pode e deve
ser saldado voluntariamente, no seu devido tempo e de acordo com a lei –
nunca sob ameaça, ainda que velada, das forças de segurança.
Saúda-se, assim, a intervenção do Sr. SEAF no sentido de travar esta insólita iniciativa, que esperamos não mais se repita.
Aqui vivemos, no país da atençãozinha.
Atenção há pouca, atençõezinhas há muitas. Parece que hoje são
indispensáveis para que se avance, para o progresso
. Como podemos nós ir
longe sem uma atençãozinha? Não vamos. Decência hoje envolve evitá-las?
Já não sei bem. Mas somos especialistas na arte de fazer uma
atençãozinha. Não é exclusiva deste nosso rectângulo virado para o
mar, a atençãozinha.
No entanto, somos exímios artistas na sua
performance e execução. Não há ninguém melhor que o português para pedir
alguma coisa tentando não dar nada em troca. A atençãozinha é
transversal, percorre todo e qualquer sector.
Vai do trabalho ao
dia-a-dia. Estamos habituados a vê-la na política, com a atençãozinha do
genro que é ministro ao secretário de Estado que acaba por ser cunhado
da prima do tipo que ajudou na tesouraria de toda a campanha eleitoral.
É
o dia-a-dia. A atençãozinha chega a ser razoável ou apropriada se for
utilizada numa dose ínfima e sem importância que não prejudique
terceiros directa ou indirectamente. Mas nós portugueses somos lambões.
Imagine-se o caso do grande chefe versus o grande actor.
Quem ganha no ringue da bazófia? Quem leva a melhor na grande batalha do
peito cheio? Haverá apostas para o grande vencedor do Óscar de Maior
Vaidade? Será uma disputa renhida
. Isto porque de um lado temos o grande
cozinheiro que sabe muito bem como estagiar lascas de anona em muco de
lebre caçada ontem enquanto dá ordens para que se possa empratar como
deve ser as uvas sem grainha com o inhame braseado; e do outro o afamado
artista que sabe chorar sem que lhe peçam.
Quem paga a conta?
“Eu
entrei em grandes filmes, esgotei bilheteiras, mereço uma atençãozinha.”
Tudo bem, mas ainda anteontem o Obama jantou aqui e repetiu a
sobremesa. Queres, vens, mas pagas.
A atençãozinha envolve saber
negociar muitas vezes. Ofereço-te a degustação e levas-me a Cannes. As
atençõezinhas chegam a este nível de inutilidade.
Vejamos o que faz o guru dos hotéis na
Península Ibérica para que o filho, o sobrinho mais velho, a afilhada e
duas outras miúdas, que se juntaram porque trocaram roupa, para entrar
na melhor discoteca daquela cidade.
Um telefonema. “Olha, uma
atençãozinha aí aos miúdos, Paulo se fazes o favor. São cinco”. Custa-me
a querer que o Paulo durma de borla num cinco estrelas dias depois mas a
atençãozinha às vezes pede apenas influência e não algo em troca. A
linha é ténue para que a possamos distinguir das demais estratégias.
Quando a atençãozinha é usada para algo que não aquilo a que foi
destinada não vale a ponta de um chavelho. Se é para usar correctamente,
é à séria. São os bilhetes para os festivais, os melhores lugares no
espectáculo, as multas e os excessos. São os restaurantes, a noite, os
papéis assinados e a entrada, seja onde for.
A discoteca, a
universidade, o acesso ao crédito ou o escritório. Uma passagem à
frente, um encontrão, o “fazer mais depressa e a menor preço”. A
atençãozinha versus o esforço.
A facilidade contra o trabalho.
Tudo em prol do bolso? Não creio. Talvez em prol do asco e de uma vida
repugnante. Vem daí, fazemos atençõezinhas... e excursões para visitar o
Terreiro do Paço.
Três responsáveis por coutos de caça em Tutela e Cintruénigo,
região de Navarra, conheceram agora a sentença do tribunal pelo caso
mais grave de envenenamento conhecido até hoje em Espanha e mesmo na
Europa.
De acordo com o tribunal de Pamplona, os três arguidos foram
considerados autores “criminalmente responsáveis de um delito relativo à
protecção da fauna na modalidade de caça de espécies ameaçadas”, indica
o jornal Noticias de Navarra.
Cada um foi condenado a dois anos e oito meses de prisão e ainda a
cinco anos e quatro meses de inabilitação especial para a “gestão do
aproveitamento cinegético de coutos de caça, para o ofício de guarda de
caça e para o exercício do direito de caçar.”
Vão ter de pagar também
uma indemnização conjunta de 67.538,65 euros à Comunidade Foral de
Navarra.
Em causa estão dois delitos relativos à protecção da fauna: caça de espécies ameaçadas e utilização de veneno para a caça.
Foi entre Abril e Setembro de 2012 que guardas florestais de Tutela,
na região de Navarra, descobriram o envenenamento de 138 aves de
espécies consideradas Vulneráveis ou Em Perigo, incluindo várias sob
protecção especial.
Segundo o jornal, os crimes aconteceram em três
coutos de caça e vitimaram 129 milhafres-pretos, 4 milhafres-reais, 2
grifos, 1 abutre-do-Egipto, 1 tartaranhão-ruivo-dos-pauis e 1
águia-de-asa-redonda, entre outros. Muitas das aves foram encontradas em
áreas protegidas, dentro dos limites de um dos coutos. Foram também
encontrados mortos quatro cervos.
O tribunal considerou provado que a causa da morte de todas estas
aves foi o uso de iscos envenenados com Fention e com Demeton S-motil,
substâncias proibidas há vários anos no país.
Esses venenos foram usados
repetidamente, em especial num dormitório de milhafres situado dentro
de um dos coutos de caça, “com o objectivo de eliminar predadores de
espécies susceptíveis de caçar nos coutos, fundamentalmente a perdiz e a
lebre.”
Este foi o maior caso de envenenamento de fauna selvagem conhecido em
Espanha e mesmo na Europa desde que há registo destas situações, em
2004. Demorou quase sete anos a ser sentenciado, devido aos muitos
recursos apresentados, e envolveu escutas telefónicas, uma das
principais provas contra os acusados.
No processo, estiveram envolvidos tanto o Governo de Navarra como
várias organizações ambientais, nomeadamente a Ecologistas en Acción,
WWF Adena España e SEO Birdlife.
Em Portugal, onde o problema do envenenamento de fauna selvagem tem
sido reconhecido pelas autoridades, não houve até hoje qualquer
condenação por casos conhecidos. Em Abril passado, foi apresentado publicamente o novo Programa Antídoto, que revê os procedimentos a adoptar pelas autoridades nacionais quando há suspeitas.