A Língua Portuguesa de A a Z
Leio por aí que o dia 5 de Maio é o Dia da Língua Portuguesa.
Pois bem: aqui ficam 23 palavras em homenagem à nossa língua, de A a Z…
Aprender. Nascemos sem palavras, num choro que se
mistura com a dor, o amor e os nervos dos pais. Palavras? Nenhumas.
Devagar, aprendemo-las e, com elas, o peculiar mecanismo a que chamamos
língua portuguesa.
Beleza. Depois, quando crescemos, usamos esse
mecanismo para comprar e vender, namorar e discutir, aprender e ensinar —
e também para insultar e conspirar. Mas é também material da
literatura, da música, de discursos de coração a bater, de frases
sussurradas e que nunca esquecemos. A língua — e em especial a língua a
que chamamos nossa — é uma das maneiras que temos de criar coisas belas
neste mundo. Não é coisa pouca!
Camões. É a língua de Camões, não porque tenha sido
inventada pelo poeta, mas porque era a língua que ele falava… Mas também
é a língua do Martim Codax, do Gil Vicente, do Bernardim Ribeiro, do
Manuel, da Maria, da Sara — e de todos os que a falam por esse mundo
fora.
Descoberta. Diz-se e escreve-se muita coisa que não
vale a pena. Mas, no meio de todos os livros que temos na nossa própria
língua, há tanto a descobrir. Para começar, o próprio do Camões, que
para lá de servir para chatear e para nomear de cada vez que falamos da
língua, também serve para ler. E não é só Camões, claro — deixo apenas
três sugestões, mais do que batidas, mas novíssimas de cada vez que
alguém abre um destes livros:
A Queda dum Anjo, de Camilo;
A Relíquia, de Eça;
Memórias Póstumas de Brás Cubas,
de Machado de Assis. Ah, e já agora, delicie-se com um livro bem mais
recente, descoberto ontem mesmo por milhares de espanhóis, nas páginas
do
El País:
A Sala Magenta, de Mário de Carvalho.
Escrita. Dos milhares de línguas da Terra, só uma
minoria tem uma forma escrita. Temos essa sorte. Ainda por cima, ao
contrário do que acontecia há 200 anos, uma grande maioria da população
sabe escrever — e, hoje, escreve mesmo o dia inteiro. Daí, surgem
dúvidas, hesitações e erros — e surge ainda o maior erro de todos: a
convicção de que há quem nunca erre. Todos erram — uns mais do que
outros, é bem verdade.
Filhos. E quem mais erra — e ainda bem! — são as
crianças, ao começar a dominar esta língua, devagar, esforçando-se por
aprender as regras, as excepções, os tabus, os truques e as delícias. É
pela tentativa e erro que vamos lá — a língua é mesmo assim, qualquer
coisa de muito humana, construída no dia-a-dia na cabeça e na boca de
cada um de nós.
Galego. Esquecemo-nos de onde veio a língua — sim,
veio do latim (que também já tinha vindo de outras línguas mais antigas,
numa sucessão que segue por muitos milhares de anos enterrados no
passado). Mas esse latim começou a ser cozido nas bocas dos falantes lá
para cima, no nosso Norte, mas também na Galiza, onde ainda hoje se fala
qualquer coisa de muito parecida com o português. É uma das surpresas
guardadas no sótão da língua.
História. Uma língua que já existia quando Afonso
Henriques se tornou rei — mas que não tinha o nome que tem hoje. Uma
língua que veio lá das serranias do Noroeste da Península e desceu até
ao Algarve, fazendo-se depois ao mar. Não é uma epopeia, é uma história
feita de tanta gente que não cabe em poucas linhas — ou em muitas
linhas. Fico-me, apenas, por estas letras, de A a Z, em homenagem a essa
História.
Indignação. O português é também a tentativa —
desesperada, inevitável — de o aprisionar nas páginas de dicionários e
gramáticas. Não são esses livros que criam a língua, mas tiram-lhe o
retrato. Depois, há quem se indigne quando a língua não se comporta
sempre como aparece no retrato. Acontece isso com o português e com
todas as línguas aqui à volta. Faz parte.
Jogo. A língua também é brincadeira. Às vezes, é até
uma forma de passar o tempo, em conversas aos círculos, palavras que
não acrescentam, mas que nos ligam uns aos outros nos momentos em que
estamos juntos. E é também um jogo no recreio da escola, nas mensagens
dos ecrãs, nas canções de embalar, nas anedotas ao jantar, nas frases
dos namorados…
Letras. A língua começa nos sons e não nas letras —
e, no entanto, são as letras que nos dão o aspecto da língua. As letras e
tudo o que as acompanha — por exemplo, no português, temos a nossa
conhecida cedilha e o til, criando, só como exemplo, esse conjunto —
«-ção» — que nunca inicia uma palavra, mas permite reconhecer de
imediato um texto como português.
Medo. Há quem tenha medo de escrever, não vá dar-se o
caso de cair no temido erro. Pois bem: é certo e sabido que, sim, vai
mesmo cair no erro. Não deixe de o combater, mas descontraia: a língua é
demasiado importante e saborosa para se deixar de usar por receio dum
qualquer tropeção. Fale (sem pudor). Leia (bons livros). Escreva (por
prazer).
Nascimento. Uma língua como a nossa há-de ter
nascido num certo momento da História, não é? E, no entanto, nunca
nasceu — foi-se criando, devagar, na rua, a partir do que vinha antes e
sempre a caminho do que vem depois. Parece uma banalidade, mas não é
bem: o português — como todas as línguas — nunca chegou a um estado
completo, final. Está sempre a transformar-se, devagar, noutra língua,
ligeiramente diferente. Um processo inevitável — mas, valha-nos isso,
muito lento… É por essa razão que ainda hoje conseguimos ler poemas que
falam de ondas do mar de Vigo e é por isso que, daqui a alguns séculos,
ainda há-de haver quem leia um ou outro livro que alguém está a escrever
neste preciso momento.
Ondas. Desde o mar de Vigo ao mostrengo que está no
fim do mar, a nossa língua tem qualquer coisa de onda e de água, de
espuma e de areia. É só impressão minha, certamente, inscrita na minha
cabeça por tudo o que já li na minha língua.
Palavrões. Aqui, nesta letra, podia ter deixado
Pessoa,
com essa frase escrita por uma das suas criações, transformada num dos
mais enjoativos chavões da língua («Minha pátria é blá, blá, blá»). O
arquipélago de poetas não merece tal sorte. Também podia ter escolhido a
pureza, objectivo raras vezes confessado de quem gosta de limpar a língua, a mais desarrumada das criações humanas. Fico-me pelos
palavrões
— essa prova bruta da força das palavras, da maneira como a língua
serve para levar a nossa imaginação, mesmo a menos recomendável, ao
corpo e à mente das outras pessoas.
Queria — ou quer? A língua também são os seus mitos,
as irritações, as ideias-feitas, as pequenas graçolas. Há quem não
goste do simpático «queria» e prefira o «quero». Há quem insista em
pedir um «copo com água», para se proteger do perigo de receber um copo
feito de água. Há quem ande sempre à caça da falta de lógica da língua.
Ora, como a língua não foi feita com um esquadro nem planeada por
ninguém, o material à disposição desses caçadores é praticamente
infinito…
Redundância. E o que gostam eles (os tais caçadores
de imperfeições da língua) de procurar redundâncias! É um desporto
divertido, mas um pouco absurdo: afinal, a redundância é essencial a
todas as línguas humanas, como é apanágio de um sistema natural. Não
fosse a redundância e a língua exigiria sempre silêncio absoluto,
atenção sem falhas, falantes perfeitinhos. Não somos robots e dizemos
muita coisa em modo de repetição. É mesmo assim…
Saudade. É comum dizer que a saudade é só portuguesa
e não se traduz! E, no entanto, traduz-se. A língua é qualquer coisa de
muito particular, mas é também universal: não há nenhum grupo de
humanos sem língua e, até hoje, não se encontrou uma frase que fosse
impossível de traduzir. Até as frases que levam dentro essa
portuguesíssima «saudade».
Tradução. Pois é: as línguas são barreiras, mas
temos esse bilhete de passagem que é a tradução — ou a aprendizagem de
outras línguas. E, no entanto, dentro de cada língua, estão outras
barreiras bem mais profundas e difíceis de ultrapassar: às vezes, é mais
fácil pôr a conversar um português com um japonês do que um benfiquista
com um sportinguista…
Universal. A língua — a nossa língua — separa-nos
dos outros povos, é verdade. Há quem veja nisto uma tragédia humana, uma
maldição antiga. E, no entanto, imagine-se um mundo em que todos
aprendessem, numa geração, a mesma língua. Garanto: poucas gerações
depois, as diferenças voltariam a aparecer. Novas línguas surgiriam…
Mais vale aproveitar o melhor possível a nossa língua e olhar com
curiosidade para as outras línguas todas.
Variação. A língua nunca é pura, varia sempre, de
situação para situação (digo «a gente vai» a um amigo, mas não diria
numa entrevista»), de pessoa para pessoa (a língua que aprendemos nunca é
exactamente igual à língua do vizinho), de terra para terra, de ano
para ano… Há quem desespere com esta língua sempre a mudar — mas sempre
assim foi e sempre assim será.
X. A mais complicada das letras, com não sei quantos
sons — mas também um símbolo do 10, do voto, de um tesouro… A língua
esconde sempre mais qualquer coisa — mesmo dentro de uma só letra.
Zebra. A última letra é sempre a mais complicada.
Acabamos em «zebra», uma palavra portuguesa que foi exportada para o
inglês. Não é a única! E com este animal às riscas, como se fosse uma
passadeira que ganhou pernas, termino esta pequeníssima brincadeira em
23 letras, uma homenagem a esta língua em que trabalhamos, namoramos,
brincamos, cantamos — vivemos, pois então. *
*
Marco Neves.
Maio de 2019