Lifestyle
Doenças que matam
O cancro digestivo
representa 10% da mortalidade portuguesa, um grave problema de saúde
pública que tem registado uma subida nos últimos anos e que agrupa três
das doenças que mais matam no nosso país: cancro do Cólon e do Reto,
cancro do Estômago e cancro do Fígado.
O cancro do Colón e do Reto é a primeira causa de morte por
cancro no nosso país, com uma incidência de cerca de sete mil novos
casos por ano e um registo de quatro mil mortes anuais, sendo detetado
principalmente a partir dos 50 anos. Contudo, este é provavelmente o
tipo de cancro que será mais fácil de evitar com medidas adequadas de
prevenção.
"O tabagismo, a obesidade, a diabetes mellitus tipo 2 e
a alimentação rica em gorduras e carne vermelha são historicamente
associados ao aparecimento de cancro colo-retal, embora estas
associações não estejam tão bem estabelecidas", alerta Sandra Custódio.
Os
sintomas são variados, mas marcantes. "A perda de sangue nas fezes é um
sinal de alarme, que deve fazer o utente recorrer ao médico assistente
num curto espaço de tempo, uma vez que corresponde à forma de
apresentação mais comum. Alteração dos hábitos intestinais
(alternância entre diarreia/obstipação), cólicas abdominais e sensação
de esvaziamento intestinal incompleto, correspondem também a sintomas de
alerta. O cansaço, a perda de apetite, e a perda de peso, não
explicadas por outra causa, estão geralmente associados a uma doença
mais avançada", explica a médica.
A verdade é que morre um
português por hora vítima de cancro digestivo: os números são gritantes e
é necessário criar medidas para os travar - Sandra Custódio explica em
entrevista ao Lifestyle ao Minuto tudo aquilo que deve saber sobre este
cancro tantas vezes fatal.
O que é o cancro colo-retal?
O cólon
e o reto fazem parte do aparelho digestivo e compõem o intestino
grosso. O cólon é a primeira porção do intestino grosso (120 a 150 cm) e
o reto a última parte (10 a 12 cm).
O cancro do cólon e reto
começa frequentemente num pólipo que é um crescimento anómalo de tecido
epitelial na parede do intestino. Nem todos os pólipos se transformam em
cancro. Os pólipos podem ser removidos antes de se tornarem malignos.
Se forem identificadas células malignas no pólipo removido, o doente
pode ficar curado, desde que este seja superficial. Quando os pólipos
não são removidos e sofrem transformação maligna, podem invadir as
várias camadas do órgão e podem disseminar-se pelo organismo.
Quais os órgãos que afeta?
Afeta
o intestino grosso (cólon e reto). Quando se torna uma doença avançada
com capacidade de disseminação, os órgãos mais frequentemente afetados
são o fígado e o pulmão, podendo atingir qualquer órgão.
Quais são os sintomas deste tipo de tumor?
A
perda de sangue nas fezes é um sinal de alarme, que deve fazer o utente
recorrer ao médico assistente num curto espaço de tempo, uma vez que
corresponde à forma de apresentação mais comum. Alteração dos hábitos
intestinais (alternância entre diarreia/obstipação), cólicas abdominais e
sensação de esvaziamento intestinal incompleto, correspondem também a
sintomas de alerta. O cansaço, a perda de apetite, e a perda de peso,
não explicadas por outra causa, estão geralmente associados a uma doença
mais avançada.
Quais são as causas para o aparecimento desta patologia? Existem fatores de risco que contribuem para o seu aparecimento?
A
idade é o principal fator de risco, em que 90% dos casos são
diagnosticados em indivíduos com mais de 50 anos. Outros fatores de
risco a ter em conta são a Doença Inflamatória Intestinal, como a Colite
Ulcerosa e a Doença de Crohn, e história familiar de cancro colo-retal,
sobretudo em familiares de primeiro grau e/ou idades de diagnóstico
jovens (<50 2="" a="" alimenta="" anos="" ao="" aparecimento="" associa="" associados="" bem="" cancro="" carne="" colo-retal="" de="" diabetes="" e="" em="" embora="" es="" estabelecidas.="" estas="" estejam="" gorduras="" historicamente="" mellitus="" n="" o="" obesidade="" p="" rica="" s="" t="" tabagismo="" tipo="" vermelha="">
Geralmente surge em que idade?
A
grande maioria surge em indivíduos com mais de 50 anos, sendo a idade
mediana de diagnóstico 72 anos. No entanto, pode surgir em qualquer
idade, não devendo ser descurados os sintomas e sinais de alarme já
referidos, que justificam investigação.
Afeta igualmente ambos os sexos?
É
mais frequente nos homens que nas mulheres. Nos países desenvolvidos,
cerca de 1 em cada 20 homens e 1 em cada 35 mulheres irá desenvolver
cancro colo-retal ao longo da vida.
Também afeta crianças?
O
Cancro colo-retal raramente afeta crianças. Está associado a alterações
genéticas/hereditárias e história familiar de cancro em idades jovens. É
geralmente mais agressivo e associado a um pior prognóstico, quando
comparado com os adultos. Dada a sua raridade, o grau de suspeição é
baixo, conduzindo a diagnósticos mais tardios.
Em Portugal qual é a incidência deste tipo de cancro?
O
cancro colo-retal é o cancro mais frequente em Portugal, com cerca de
7000 novos casos/ano. Corresponde à primeira causa de morte por cancro,
sendo responsável por cerca 4000 mortes/ano.
E no mundo?
O
cancro colo-retal, é o terceiro mais comum no mundo, e a quarta causa
de morte por cancro. A incidência mantém tendência crescente, com 1.8
milhões de novos casos/ano.
É geralmente fatal?
O
prognóstico e a possibilidade de cura, vai depender do estadio
(extensão) da doença. Quando diagnosticada precocemente, a taxa de cura
ronda os 90%.
Atualmente, com a aposta em programas de rastreio e
com a educação para a saúde, alertando para os sinais de alarme (perda
de sangue nas fezes, alterações dos hábitos intestinais…), que devem
fazer os utentes recorrer ao médico, a taxa de cura ultrapassa os 60%.
Como é feito o diagnóstico?
O
diagnóstico definitivo de cancro é realizado a partir da análise
histológica de tecido, obtido através de uma biópsia. Esta biopsia
poderá ser da lesão tumoral primária do intestino (acessível por
colonoscopia) ou, mais raramente e em caso de doença avançada, de alguma
lesão metastática à distância, como do fígado ou do pulmão. Exames de
imagem, como o TAC e a ressonância magnética, no caso do reto, são
essenciais para o estadiamento da doença, ou seja, para definir qual a
extensão da doença, por forma a decidir qual a melhor estratégia
terapêutica.
Quais são os tratamentos mais eficazes?
O
tratamento vai sempre depender do estadio (extensão) da doença. Hoje em
dia a estratégia terapêutica deve ser delineada em Consultas de Grupo
Multidisciplinares, onde estão presentes profissionais de saúde de
diversas áreas e especialidades (Oncologia, Radioncologia, Cirurgia,
Gastrenterologia, Radiologia, Anatomia Patológica, Psicologia, etc).
Está demonstrado que a discussão multidisciplinar pode alterar o
tratamento de cada situação e aumenta a sobrevivência global, sobretudo
em situações de doença avançada.
Em situações de cancro precoce, a
exérese de pólipo por colonoscopia, pode ser o único tratamento
necessário. Na maioria dos casos o tratamento que vai ditar a cura é a
cirurgia. É essencial a remoção do tumor com margens livres e de
gânglios linfáticos regionais.
No caso de doenças localmente
avançadas (gânglios regionais metastizados, ou presença de outros
fatores de risco) o tratamento é geralmente multimodal. Engloba a
cirurgia, a realização de quimioterapia, e no caso do cancro do reto
deve ser equacionada a possibilidade de realização de radioterapia
associada ou não à quimioterapia, antes do tratamento cirúrgico. A
combinação destes tratamentos reduz o risco de recidiva e aumenta a
sobrevivência global. Em situações de metastização à distância, falar em
cura é mais difícil, no entanto, está demonstrado, que quando possível,
há benefício em erradicar toda a doença visível (tumor primário e
metástases). Para isso podem ser combinadas várias armas de tratamento:
quimioterapia associada ou não a outros tratamentos sistémicos
(anticorpos monoclonais), cirurgia (tumor primário e/ou metástases),
radioterapia (tumor primário e/ou metástases), técnicas de ablação, etc.
O tratamento multimodal pode conduzir à cura, e quando isso não é
possível, aumenta o tempo livre de doença e a sobrevivência global.
Qual é o prognóstico para o futuro, há esperança de se vir a encontrar uma cura?
A
melhor forma é apostar na sua prevenção, evitando os fatores de risco
conhecidos, e no seu diagnóstico precoce. É essencial a promoção de
hábitos de vidas saudáveis: dieta equilibrada, prática regular de
exercício físico, qualidade do sono (cerca de 8 horas diárias).
Em
Portugal, está implementado um programa de rastreio, cujo principal
objetivo é o diagnóstico de lesões pré-malignas ou de lesões malignas em
estadio inicial. Este programa assenta na realização de Pesquisa de
Sangue Oculto nas Fezes a indivíduos assintomáticos entre os 50 e os 74
anos, a cada 2 anos. Sempre que o teste for positivo, é mandatória a
realização de uma colonoscopia total diagnóstica. Este exame para além
de fazer o diagnóstico de lesões malignas, deteta pólipos adenomatosos,
que podem ser removidos durante o exame. Estes pólipos adenomatosos
correspondem a lesões precursoras de cancro, que quando identificadas e
excisadas atempadamente, é evitada a sua progressão para cancro.
Para
o caso de doenças mais avançadas, existem cada vez mais ferramentas de
diagnóstico e monitorização de doença, assim como novos tratamentos.
Um
exemplo é a utilização da biópsia líquida, uma ferramenta inovadora,
que no cancro colo-retal, começa a dar os primeiros passos na prática
clínica. Distingue-se das biópsias de tecido convencionais, por ser uma
técnica simples, não invasiva, cujos resultados poderão estar
disponíveis rapidamente. Esta técnica consiste numa colheita de sangue e
posterior análise do material genético tumoral em circulação. Em alguns
casos, permite a caracterização do perfil molecular do tumor, e
consequentemente contribui para uma escolha terapêutica mais
diferenciada e célere, de acordo com as alterações encontradas,
aumentando assim a probabilidade de sucesso. Assim, prevê-se que a
utilidade das biópsias líquidas venha a ser, num futuro próximo,
bastante abrangente, com impacto a nível do diagnóstico, do tratamento e
monitorização da doença ao longo do tempo, podendo inclusive antecipar a
sua progressão.
A evolução e desenvolvimento deste tipo de
técnicas, em várias áreas da Oncologia, antecipam que a Medicina de
Precisão será também uma realidade no cancro colo-retal, em que o
tratamento desta doença será adaptado a cada indivíduo, com a
perspectiva de potenciar a eficácia e minimizar os efeitos secundários.50>