Descobertas
extraordinárias exigem provas extraordinárias. Mas o primeiro objeto
interestelar encontrado em 2017 no Sistema Solar a 33 milhões de
quilómetros da Terra e batizado de Oumuamua
—
uma palavra havaiana que
significa “mensageiro do passado distante a chegar até nós”, porque foi
observado inicialmente pelo telescópio Pan-STARRS do Havai — não reúne
ainda consenso científico. E está a alimentar uma polémica sem fim à
vista.
Tudo porque uma das hipóteses avançadas por dois
investigadores da Universidade de Harvard (EUA) e publicada num artigo
no jornal científico internacional “Astrophysical Journal Letters”,
insiste que o misterioso objeto com 400 metros de comprimento e 40
metros de largura pode ser o resto de uma vela solar criada por uma
civilização extraterrestre e acelerada pela luz do Sol, depois de uma
longa viagem entre estrelas. Avi Loeb e Shmuel Bialy admitem que “não é
claro se o Oumuamua será um resíduo tecnológico de um equipamento que
deixou de estar operacional ou se está funcional”.
Helena
Morais, astrónoma portuguesa do Instituto de Geociências e Ciências
Exatas da Universidade Estadual Paulista (UNESP), no Brasil, descobriu
também em 2017 com Fathi Namouni, do Observatório da Côte d’Azur (Nice,
França), o segundo objeto interestelar no Sistema Solar: o asteroide
2015 BZ509. E afirma ao Expresso que “não se sabe exatamente o que é o
Oumuamua”. Inicialmente pensou-se “que seria um asteroide, mas mais
tarde foi detetada uma aceleração anómala, que não pode ser explicada
por forças gravitacionais”. Uma explicação possível “é que seria um
cometa e a aceleração extra devia-se à ejeção de gases e poeira por
causa do aquecimento pelo Sol”. Mas quando o Oumuamua estava próximo do
Sol não foi detetada ejeção de poeira ou gases, “como ocorre nos cometas
usuais”. Por isso, “se for um cometa será diferente dos que conhecemos”
(ver visão artística).
O objeto, que viaja pelo Espaço há
milhões de anos, está agora junto à órbita de Júpiter. Os cientistas
sabem que é rico em metal e rocha, tem cor vermelha escura e um albedo
alto, isto é, reflete bastante a radiação solar, o que poderá indicar
que tem uma superfície gelada. Veio de fora do Sistema Solar e está a
sair dele, como revela a forma da sua órbita, tendo nascido em volta de
outra estrela e sido ejetado devido a um encontro próximo com um planeta
em formação. “Sabemos que estas ejeções ocorrem na formação
planetária”, esclarece a astrónoma. Quanto às observações feitas por
vários telescópios quando passou mais perto da Terra, Helena Morais
reconhece que “não foram suficientes para tirar todas as dúvidas”.
Um objeto fabricado?
Ser
uma nave extraterrestre é uma hipótese para explicar a aceleração
anómala do Oumuamua, admite a astrónoma da UNESP. Se esta aceleração for
devida à pressão da radiação solar, “o objeto deve ter a espessura de
uma folha de papel” (0,3 a 0,9 milímetros), isto é, será uma vela solar.
As outras dimensões — 400 metros por 40 metros — são inferidas a partir
das variações da sua luminosidade com o movimento de rotação.
Avi
Loeb e Shmuel Bialy, os cientistas da Universidade de Harvard que
fizeram os cálculos, concluíram que um objeto deste tipo teria de ser
fabricado por uma civilização extraterrestre. “O cálculo é válido mas a
explicação improvável”, argumenta Helena Morais, porque objetos formados
em volta de outras estrelas que não o Sol “poderão ter composição e
estrutura bem diferentes” dos objetos que conhecemos no Sistema Solar.
Mas
há outros sinais vindos do Espaço — mais de 60 já registados — que
intrigam os cientistas. Em janeiro, astrónomos do Canadá detetaram
impulsos rápidos de rádio a 1,5 mil milhões de anos-luz da Terra. Emitem
mais energia do que o Sol num dia, acontecem de forma aleatória e
desaparecem imediatamente. Um ano antes, outro grupo de cientistas já
descobrira emissões do mesmo género provenientes de um galáxia anã a
3000 milhões de anos-luz da Terra, geradas por campos magnéticos
poderosos. Avi Loeb e o seu colega Manasvi Lingam, também da
Universidade de Harvard, sugeriram que estas emissões podiam ter origem
em transmissores laser construídos por civilizações extraterrestres,
destinados precisamente a enviar velas solares em viagens
interestelares.