DAS DIFERENTES FORMAS PORQUE SE RENDIA O CULTO
Os romanos honravam os deuses por actos internos e externos de culto, que são os seguintes:
1º Adoração ( Adoratio ) - Consistia em levar a
mão à boca ( ad os, ou ad ora ) e beijá-la; o adorador colocava-se de
pé, de joelhos ou prostava-se, depois de ter volteado em roda do altar e
da imagem; levava a cabeça coberta, com um véo sobre o rosto pelo
receio de ser distraido por algum objecto inoportuno; ou para não ser
interrompido por algum agouro sinistro.
2º Votos ( Vota ) - Eram as promessas feitas
aos deuses para aquisição de alguma graça, ou para algum sucesso feliz; o
que fazia o voto, dizia-se voti reus, e o que o cumpria voti damnatus.
3º Orações ( Preces ) - Eram quaisqueres suplícas dirigidas aos deuses, n'este acto tocava-se frequentes vezes com as mãos nos altares.
4º Acções de Graças ( Supplicatio ) - Tinham lugar para honrar o general que tinha obtido alguma grande vitória, a quem o senado dava o titulo de imperador; era uma manifestação de regozijo publico em que se abriam os templos para dar graças aos deuses.
5º Preces publicas ( Obsecrationes ) - Tinham
lugar quando a república era oprimida por alguma calamidade. Abriam-se
os templos, tiravam-se as imagens dos altares, e colocavam-se sobre uns
coxins ( pulvinaria ) ; a que se seguia um banquete em honra dos deuses, e para o qual eles se supunham convidados.
Esta cerimónia de deitar os deuses sobre os coxins chamava-se lectisternium,
e na ocasião solene em que ela tinha lugar, punham-se mesas cobertas de
iguarias em todos os bairros da Cidade, nas quais admitiam todos os
cidadãos indiferentemente; era um dia de reconciliação em que se
tratavam os inimigos como amigos, e em que se dava liberdade aos
prisioneiros.
Pretendem alguns arqueólogos que o lectisternium também tinha lugar nas acções de graças.
6º Sacrifícios ( Sacrificia, ou Sacra ) - Eram
todas as cerimónias para honrar os deuses, em que se ofereciam vitimas
cruentas, ou incruentas: n'eles consistia, pela maior parte, o culto
romano.
As duas grandes fontes do belo são a natureza e a arte; e, desde
Platão, filósofos e artistas tentaram assinar a cada uma delas os
próprios limites, a própria missão.
Erraram todos aqueles que, num álveo comum, quiseram reunir os dois
grandes rios estéticos; e erraram igualmente todos os outros, que os
quiseram separar com diques insuperáveis, que impedissem o mínimo
contacto entre as duas águas.
Parece-me, ao revés, que natureza e arte, antes de se separarem uma
da outra, teem uma nascente comum, como dois rios que do mesmo glaciar,
mas por diverso declive, levam suas águas ao oceano.
O belo da arte não é, não deve ser diverso do da natureza, porque é
uma escolha deste, é um dos seus elementos, uma das suas faces.
Erra Platão, quando reduz a arte a uma simples imitação da natureza;
erram ainda mais todos os outros que crêem a arte essencialmente
criadora, e lhe concedem todas as temeridades, dizendo que só o possível
marca os seus confins.
A arte não é mais que uma filha da natureza, porque o próprio artista
é homem, e, portanto, filho também ele, da grande Mãe, que gera todas
as criaturas terrestres. Nós fazemos parte da natureza, da qual, pelo
menos no nosso planeta, somos o organismo mais elevado e mais complexo.
Ora o artista, depois de ter visto, admirado e estudado as coisas
belas que o circundam, escolhe o que lhe parece mais belo, e o reproduz
com o teque, com o pincel ou com a pena, dando-nos uma estátua, ou um
quadro, ou uma descrição em prosa ou em verso.
Em toda a obra de arte há, pois, o belo da natureza, mais o engenho do artista, que o escolheu e reproduziu.
O belo da arte é, portanto, a harmonia de duas belezas diversas, uma
que nos vem da natureza, e que podemos dizer que lhe constitui quase o
esqueleto; outra que nos vem do génio e da mão do artista, e que lhe
forma as carnes, a pele o vestuário.
Estes dois elementos variam assaz nas proporções recíprocas; pelo que
ora uma iguala a outra, ora uma é muito pequena e a outra muito grande.
Quando queremos fazer a critica duma obra de arte com justiça,
devemos fazer sempre a análise quantitativa destes dois elementos,
pesando-os na balança do bom gosto.
Quando um pintor copia uma rosa, e não lhe junta de seu nem uma
pétala, nem uma cor, nem uma folha, pode-nos dar uma obra egrégia pela
fidelidade da imitação, pela ilusão perfeita que apresenta aos nossos
olhos.
Assim o escultor que modela uma bela mulher, da qual tem diante de si
o corpo nu. Nestes dois casos, e em outros semelhantes, o artista põe
muito pouco da sua lavra, e a natureza domina quási exclusivamente o
campo estético.
Outra vezes, pelo contrário, é um pintor que nos pinta o Calvário com
o Cristo agonizante e um voo de anjos contristados, que
fazendo das asas uma viseira ao rosto,
fogem pelo ar, carregado de escura tristeza; ou é um escultor, que nos
representa Lúcifer, que tenta um santo à beira dum abismo, onde quere
precipitá-lo.
Nestes dois casos a natureza entra por pequena parte, e o génio
criador do artista campeia e domina o campo estético. Pintor e escultor
não viram nunca nem o Cristo, nem o santo, nem os anjos, nem o abismo;
mas para todas estas coisas tiraram, todavia, elementos da natureza,
fundindo-os juntos no cadinho do génio.
Quer, porém, o artista copie ou crie, quer se faça um modesto
imitador, ou pretenda dominar e conquistar a natureza, põe sempre na sua
obra a própria individualidade, o próprio
estilo, palavra
maravilhosa, que, sem querer, assemelha o escritor aos outros artistas
do teque e do pincel, e que significa pròpriamente o
instrumento estético, com o qual cada um de nós entende, interpreta e reproduz as belezas naturais.
Este
estilo, que Hirt
( 1 ) chama
carácter,
é tão diverso dum pintor para outro, dum para outro escultor, que
permite a um crítico inteligente descobrir o autor, ainda quando este
não tenha assinado as suas obras; e o ilustre João Morelli
( 2 ) nos seus maravilhosos trabalhos de crítica, tem mostrado até onde pode chegar esta potente faculdade de diagnose.
1 - HIRT ; Uber, das Kunstschone, Horm, 1797.
É
um livro antigo e pouco conhecido, mas profundo, e em que o autor expõe
mui judiciosos conceitos sobre o belo na arte, e, especialmente, sobre o
caracter do belo na arte.
2 - Insígne crítico de arte, italiano, ( 1816 - 1891 ), autor do célebre livro Della pittura italiana, que adquiriu fama universal.